022 Verão de 1946, tempos de praia. A família Boni hospedada no Hotel Riogran- dense – talvez, na época, o único de Capão da Canoa ou o melhorzinho das redondezas. De dia, banhos de mar, encontros com amigos e caminhadas pela areia. À noite, depois do jantar, lembro da minha mãe contar, arrasta- vam para junto das paredes mesas e cadeiras do refeitório e do nada brota- va um baile onde também os garçons , já em horário de descanso, tiravam as gurias para dançar. Enquanto isso, os senhores e as senhoras ficavam lendo ou conversando no avarandado, alguns se permitiam um digestivo. Às quinze pras dez, a luz piscava duas vezes avisando que às dez o gerador que alimentava a cidade seria desligado. E, então, às dez, todos já estavam recolhidos, o breu absoluto era quebrado apenas pela luz da lua, quando ha- via, e das velas e lampiões a querosene. No grande prédio de madeira onde funcionava o hotel, as divisórias internas não iam até o teto. Assim, largas frestas tornavam possível ver projetadas no forro as luzes e as sombras dos movimentos dos quartos vizinhos. E o silêncio da noite era interrompido apenas pela conversa dos sapos e pelo barulho ritmado do mar. Nesse cenário, meu avô Armando Boni teve um infarto. Eu nunca lembrei de perguntar se aconteceu de dia ou de noite – e agora não tenho mais para quem perguntar... Soube sim que ele foi trazido para Porto Alegre às pressas, acompanhado por minha avó e meu tio Benito, num carro dirigido por um dos irmãos Andreatta, à época famosos pilotos de carreteras 1 e amigos da 1 Carreteras – termo absorvido dos vizinhos Uruguai e Argentina, eram corridas de automóveis realizadas em avenidas das cidades ou mesmo estradas, fechadas para este fim. Porto Alegre foi sede de carreteras importantes como os circuitos da Pedra Redonda e o da Farrapos. Essas corridas, que reuniamumpúblico bastante significativo, aconteceramde 1940 a inícios de 1960, quando, por razões de segurança, foramproibidas e foi construído o Autódromo de Tarumã.
RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=