023 família. A habilidade do motorista permitiu que a maior parte da viagem fosse feita pela beira da praia. Mesmo tendo que driblar muitos riachinhos e colocar esteiras de palha para vencer os cômoros de areia, aquela era a forma mais rápida de chegar à assistência médica urgente e necessária. E foi no recém inaugurado Pronto Socorro Municipal que meu avô recebeu o atendimento adequado e possível na época. Ainda resistiu por pouco mais de ummês, parte hospitalizado, parte em casa. E morreu no dia 15 de março, alguns meses antes de completar 60 anos. Não tive nenhum convívio direto com ele. Infelizmente, nasci quatro anos depois de sua morte. Então, o que tenho para contar nesta que estou cha- mando de ‘biografia afetiva’, além de resultados de leituras, são histórias que ouvi, contadas por minha avó, que sempre chamamos de nonna , por mi- nha mãe, por meu pai, por meus tios e tias. E também muitas informações vindas das pesquisas genealógicas feitas por meus irmãos. A nonna , diferente do marido, viveu muito, 52 anos além dele. Morreu no dia 23 de julho de 1998, com 109 anos. Foi lúcida quase até o final, mas, às vezes, quando perdia um pouco a consciência, reclamava: Armando, porque me trouxeste para esta terra tão distante e me deixaste aqui sozinha?, trans- mitindo a forte sensação de abandono que deve ter vivenciado por mui- to tempo. Mas ainda se comovia, muitas vezes até chorava, quando falava nele, contando histórias que viveram juntos. Passados dois anos da morte da nonna e parcialmente vencida a dor daquela perda tão significativa na vida de toda a família, começamos a esvaziar a casa, lugar que foi moradia de vários que ali também morreram e outros tantos que dali se mudaram.
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