educaSesc#4

7 EDUCA SESC 2020 A PANDEMIA CHEGOU E A ESCOLA PAROU A pandemia, e em consequência dela o isolamento social, trouxe muitos desafios para a escola de Educação Infantil, dentre eles como acolher as necessidades de cada criança, dar continuidade ao que tínhamos começado, manter os vínculos à distância e, em especial, estreitar com as crianças e famílias que chegavam na escola pela primeira vez (STACCIOLI, 2013). Para algumas crianças era o início, para outras, o término da trajetória no Sesquinho. Tínhamos clareza do que não faríamos e a certeza de quais ingredientes sustentariam todas as nossas escolhas, que eram os princípios da Escola, as legislações vigentes, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil e a Base Nacional Comum Curricular, bem como as orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria em relação ao tempo de tecnologia diária para as crianças. Mas, não tínhamos a receita de como fazer isso. Os dias passavam, as crianças e as famílias nos davam pistas do que era importante para o momento, dois atores fundamentais desse processo. E assim propomos histórias, amigo x, meditação, ginástica, bingo, brincamos de bolhas de sabão, piquenique, organizamos drive thru literário, kits com propostas semanais, encontros no zoom e ligações telefônicas, a fim de mantermos os vínculos com as crianças. A cada proposta lançada avaliávamos a adesão, os retornos, as descobertas, o que tinha de potente e o que nos causava estranhamento. Fomos percebendo também nossa fragilidade, pois com algumas famílias não tínhamos constituído um vínculo, apesar de estarem na escola há dois anos. Um tempo tanto para a docência quanto para a gestão de muitas aprendizagens, partilhas e autoria. De início não tínhamos a dimensão do que esta escolha nos proporcionaria viver e aprender. Precisávamos pensar numa estratégia que garantisse o contato com todas as crianças, pois pela dificuldade de acesso à internet, muitas delas não participavam dos encontros pelo zoom, e vislumbramos nas ligações telefônicas a resposta para isso. Nesse sentido, esse relato tem por objetivo narrar algumas das experiências vividas pelas professoras com as crianças nas ligações telefônicas realizadas, durante o tempo de distanciamento social. AS LIGAÇÕES E AS CONEXÕES Quem diria que um aparelho tão pequeno, o telefone, se tornaria o meio e a estratégia que mais nos aproximaria das crianças. As ligações eram dinâmicas, os telefones acompanhavam a rotina e o movimento das crianças pela casa, aconteciam por vídeo chamada, áudios, fotos, vídeos, trocados com as crianças e até a ligação convencional, foram marcando encontros e reencontros. A cada ligação somos convidadas a entrar nas suas casas, tornando-as, assim, um lugar de desvendar, imaginar, aprender e se conectar com a escola. Da intenção de apenas nos aproximar das crianças, as ligações foram tomando outras proporções, de escuta e conversas genuínas (HOYUELOS, RIERA, 2019). Um fio invisível que nos conectou, que trouxe notícias de lá e que levou notícias de cá. Ligações que nos sensibilizavam pelo cotidiano da vida familiar de cada criança. Euforia, timidez e para alguns até estranhamento, pois já tinham se familiarizado com a tela do zoom e ao nos ver pela tela do celular nos perguntavam: - aonde estão os outros? Ligações em que a voz, o suspiro, o silêncio, o olhar, o corpo todo falava. Ora “gritando”as urgências das crianças e em outros o encantamento pelas pequenas coisas que nos contavam. Um tempo único, não perdido. Pois, se a vida é o tempo todo, a infância é cada segundo. As crianças nos diziam quando não queriam falar, e isso era respeitado. Em dias de frio intenso as crianças dormiam após o almoço e tínhamos de nos adaptar. Por outros, em dias quentes, ensolarados, ou após a chuvarada o que mais as crianças queriam era liberdade e não tinha problema algum não conversar com a professora, tempo de aprendizagem para nós adultos. De início íamos nos ajustando aos horários da família, depois fomos entendendo que uma estabilidade de dia e horário era necessário e organizador tanto para as crianças e suas famílias, quanto para nós professoras. Nos primeiros momentos desta nova rotina de ligações, tivemos que aos poucos ir construindo sentido para algumas famílias, por isso buscamos estratégias para tornar visível nossas intencionalidades, em conversas individuais ou mesmo falando sobre isso nas reuniões. Nossa escolha foi sempre pelo bem-estar das crianças, mas nesse contexto, elas também dependiam dos adultos para terem acesso, não só as ligações como também das propostas, livro de literatura, kits semanais e participar dos encontros virtuais. O que por vezes lhe fora negado pelo adulto que não se fazia disponível ou presente. Entendemos que a complexidade da vida se alterou em muitos aspectos, tanto pelo desemprego e trabalho home office como até situações emocionais, por isso de forma alguma desconsideramos as lutas diárias de sobrevivência de todas as famílias, mas precisamos ver este cenário também pelo olhar da criança, que é um sujeito de direitos e pela sua especificidade, depende do adulto para viver o que lhe é de direito. Por outro lado, pensando em todo o tempo de escola que já vivemos, nunca criamos tanto vínculo com a maioria dos pais e familiares que ficavam com as crianças nesses momentos. Adultos também necessitavam ser escutados, divertiam-se junto com as crianças durante as ligações, participando inicialmente de uma forma mais tímida e aos poucos com mais intensidade, levando as crianças a verbalizarem em alguns momentos que a ligação era para elas. Compartilhávamos nossas incertezas e certezas, as descobertas que antes aconteciam mais na escola, devido ao tempo de permanência das crianças em As ligações com a profe Pri e com meus colegas às vezes, são bem divertidas. Ela faz várias brincadeiras, ela, além do mais, conversa, ela dá carinho, dá atenção. Isabella Friederich Jann, 6 anos

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