educaSesc#4
EDUCA SESC 8 2020 período integral, hoje são vistas primeiramente pela família. Escutar o relato dos pais encantados com cada processo e descobertas de seus filhos, reafirmam que as aprendizagens que as crianças vivenciam na Educação Infantil, estão para além de saber todas as letras do alfabeto ou saber recitar a sequência numérica. Abaixo passamos a narrar alguns episódios das ligações vividas entre as crianças e as professoras da escola. OS RECÉM-CHEGADOS À ESCOLA Narrativas pelo olhar da professora Aline Foram poucos dias de escola e para a Isabella era a primeira experiência no Sesquinho, sendo um vínculo que estava apenas iniciando tanto entre ela e a escola, como para a família com a escola. Nas primeiras ligações, Isabella apenas me olhava e ria, se escondia, pouco estabelecia contato. Até que um dia Isabella recebe a ligação em meio aos brinquedos e com isso começo a perguntar sobre o que ela estava fazendo, do que estava brincando? Isabella começa a mostrar seus brinquedos e sua voz baixinha, que mal conseguíamos escutar, começa a ter outro tom, outro som. Quando percebi, estávamos brincando de casinha, comidinha e de bonecas em meio a ligação, cada uma de um lado do vídeo chamada, longes de corpo, mas conectadas pelo ato do brincar e pela sensibilidade de ouvir o outro não pelas palavras mas pela escuta silenciosa das suas necessidades. LIGAÇÕES ENTRE AMIGOS Entre tantas chamadas, algumas foram realizadas em pequenos grupos. Na hora em que essas ligações foram pensadas, não imaginamos a alegria do reencontro entre as crianças. Vicente ao perceber que falaria comigo e com o Mathias ao mesmo tempo, ao olhar o amigo, apenas ria. Foram alguns minutos de um riso contagiante e de uma troca de olhares entre eles que dizia da saudade, da alegria do reencontro mesmo que separados pela distância. Após o riso e a paralisia do momento, Vicente começa a contar para Mathias do seu dia, das suas brincadeiras e Mathias o retribui dizendo “...que saudade, que saudade...” A saudade diz das lembranças boas da nossa vida e dos amigos que conhecemos. Mathias era uma das crianças que acabara de chegar à escola, pouco antes do distanciamento e Vicente o acolhera em suas brincadeiras e aventuras como se conhecessem há muito tempo. CONVITES Dentre tantas temáticas que emergem a cada ligação, podemos dizer que o melhor de tudo são os convites que recebemos. Convites de brincadeiras, histórias e músicas, convites de conhecer as casas, animais e as plantações. Esses convites dizem também da intimidade que vamos construindo com as crianças e famílias e da necessidade de compartilharem conosco um pouco de suas vidas. Em uma das ligações e convites, Enzo saiu correndo pela casa mostrando todos os espaços, quarto, cozinha, banheiro, sala e pátio. No pátio, ele chama todos os cachorros e apresenta um a um. Mostra o girassol que plantou com a sua mãe o qual dialoga com o crescimento e com o tempo que estamos longe uns dos outros. Na ligação seguinte, Enzo me pergunta sobre os meus cachorros, a minha casa e vivo com ele o movimento inverso, o movimento de partilhar a minha vida, de abrir a casa e de mostrar os meus animais de estimação. Um movimento de escuta e diversão. Um movimento de partilhar, conhecer, trocar e de se envolver com a vida um do outro. UMA HISTÓRIA PARA ADORMECER Ao ligar para o Carlos Eduardo, percebo que ele estava quase dormindo, se aproximava das 15 horas, estava em seu quarto com a luz apagada, escutava o barulho da chuva que caia lá fora. Com a chupeta na boca ele dá um sorriso e me diz “oi profe”. Então se desperta com o telefonema e sua mãe pede para ele vir conversar comigo e eu pergunto: você estava indo dormir? “Sim”, ele responde. Foi então que percebo que o que as crianças mais precisam nesse momento é serem escutadas em suas necessidades. Foi então que pergunto se ele queria ouvir uma história para dormir e ele me olha e diz que sim. Conto uma história, ele se aconchega no seu travesseiro e no final ele diz “igual na escola”. Percebendo que ele estava sonolento me despeço dele com um beijo, desligo o telefone e emocionada fico com a imagem daquele olhar e com a frase “igual na escola”. OS AVÓS Narrativa pelo olhar da professora Mariéle No seio familiar, avós ocupam um lugar de extrema importância, não só para com o cuidado da criança, mas também no sentido educativo de quem transmite uma história, valores, cultura e até mesmo na construção de narrativas sobre esse tempo de distância da escola e reencontro familiar. No nosso contexto muitas crianças têm permanecido na casa dos avós enquanto seus pais trabalham. Daniel é uma criança que todos os dias é levada pela mãe até a casa dos avós no interior. Algumas vezes não conseguimos contato por telefone, mas aos poucos fomos encontrando estratégias para se comunicar com ele. Por meio de áudios, Daniel relata o que tem feito, o que tem vivido e que relações vêm construindo. Em um desses dias, relata por mensagem de voz que estava ajudando o avô a cortar lenha e que depois ajudaria também a guardá-la em um lugar onde a chuva não a molhasse. Breno e Alice passam a semana toda na casa dos avós, retornando somente aos finais de semana para junto de seus pais. Em uma das ligações, Breno relata que estava ajudando a avó fazer pão e por telefone narra que estava sovando a massa e que depois iria colocar no forno. Em outra, estava pescando com sua tia e primas. E por telefone me disse: “Não pegamos nenhum peixe ainda, precisa de silêncio, se não eles não vem. A gente espanta os peixes falando alto”. Ummovimento de escuta e diversão. Um movimento de partilhar, conhecer, trocar e de se envolver com a vida um do outro.
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