Catálogo Bienal Fibra 2025
CATÁLOGO FIBRA . II BIENAL DE ARTE TÊXTIL CONTEMPORÂNEA. 2025 10 de de cultivar algodão para confecção de suas vestes. Não são apreciadores da nudez, preferindo cobrir-se para a convivência comunal. Contam os ashaninka que, um dia, ao chegar em casa, Pawa en- controu suas filhas reunidas e quis saber o que faziam. Elas res- ponderam que tentavam fabricar um instrumento para fiar o algo- dão e, com isso, tecer suas vestes. Pawa, então, mostrou-lhes como obter as vestes sem esforço: bastava armazenar o algodão em um paneiro sagrado, fechá-lo e, ao abri-lo no tempo devido, lá estariam os trajes, prontos para serem vestidos. Apesar de advertir as filhas para que nunca abrissem a caixa durante o processo, uma delas o desobedeceu na primeira oportunidade. Sabendo disso, Pawa cas- tigou a filha. Graças ao seu mal-feito, os ashaninka foram privados da facilidade divina de obter suas vestes sem esforço. “Porque vo- cêsme desobedeceram, daqui para a frente, fiar e tecer serão tarefas trabalhosas”. Desde então, tanto a tecelagem, quanto os desenhos perderam o direito à naturalidade divina da criação, demandando esforço braçal e intelectual próprios das tarefas humanas. Entre os ashaninka, até hoje, guardar e transmitir o conhecimen- to da fiação e tecelagemdas vestes que protegem e ornamentam os corpos é sinal de reverência à origem divina do trabalho têxtil e uma lembrança das recaídas mundanas a que estamos sujeitos. * A certa altura do Movimento pela Independência da Índia (1919-47), Gandhi consagrou ao gesto de fiar valor central na resistência ao colonialismo inglês. Os cidadãos indianos eram incentivados por ele a possuírem sua própria charkha - ou roca, uma roda de fiação que poderia ser dobrável e portátil de modo a permitir que qualquer pessoa fiasse o algodão para tecer suas vestes. A população era também motivada a cultivar a planta nos fundos de casa em quantidade mínima para vestir as famílias. Como exemplo a seus seguidores, Gandhi fiava diariamente na roca que o acompanhou até nos incontáveis dias de prisão a que foi submetido pela Coroa inglesa. Inspiradas pela resiliência impassível de Gandhi, milhares de indianos aderiram ao uso da roca portátil e, desde então, ela se tornou símbolo do maior mo- vimento de desobediência civil da história do pacifismo. A metodologia da Satyagraha (em sânscrito “firmeza na ver- dade”), pregada por Gandhi, ensinava a persuadir o adversário através de um confronto moral de atitudes com o objetivo de ex- por a verdade sobre a situação disputada. Assim, se um agressor atentasse contra uma vítima, segundo a Satyagraha, essa não deveria revidar, mas suportar a violência que se esvaziaria pela força da exposição da cena. Acreditava Gandhi que quando uma violência é revelada, o agressor tem a oportunidade de reconhe- cer seus erros e transformar sua conduta. O Construtivismo Social de Gandhi - ou construção da socie- dade pela Satyagraha - passa por duas ações “negativas”: a da não-violência, já mencionada, e a da não-cooperação, outro mé-
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