Catálogo Bienal Fibra 2025
CATÁLOGO FIBRA . II BIENAL DE ARTE TÊXTIL CONTEMPORÂNEA. 2025 9 dúvida. Felizmente, para aterrar minha percepção fora do campo negacionista, a globalização da internet impulsionou a dissemina- ção de estudos e imagens que tornavam irrefutável a degradação do planeta. Constatavam-se consequências do desmatamento e poluição das águas que um ambientalista como José Lutzenberger vinha prenunciando desde duas décadas antes do final do milênio. Em pouco tempo, o assunto do aquecimento global transbordou dos círculos de ativistas e especialistas para as ruas e interior das casas, tornando-se pauta nos cafés e mesas de bar. Inicialmente, eu atribuía a responsabilidade pela tragédia am- biental aos capitalistas transnacionais, conservadores, especistas e colonizadores de todas as ordens. É bem verdade que esses personagens se empenham na regên- cia da “queda do céu” - trazendo a poderosa metáfora de Davi Kope- nawa para o horizonte já visível da crise ambiental. Se de um lado, eles estão na regência (e estão), de outro, somos nós, pessoas comuns que mantemos a orquestra soando ao execu- tar nossas partituras individuais. Pensar que podemos silenciar, ou ao menos, estender as pausas da orquestra com pequenos e pacíficos gestos, soa como perspec- tiva alentadora e potente e é a partir desse ponto que puxarei o fio da reflexão que segue. * Para os hindus, Maia criou omundo como arremesso de umfio e tramou, emumgesto, a totalidade dos elementos que o constituem. Além de centrada no princípio da ilusão - representado pelo véu de Maia, que encobre a verdade cósmica com sua aparência de re- alidade - a narrativa hinduísta difere significativamente do mito judaico-cristão, segundo o qual, os elementos foram criados no de- correr de dias e ocuparam o mundo em ordem sucessiva. Na cosmogonia do mundo-teia, palpita a ideia de uma criação instantânea, onde entrelaçamento, interconexão e interdependên- cia nos convidam a refletir sobre o simbolismo da trama como base de sustentação da vida. Outro mito envolvendo a aranha tecelã aparece entre povos africanos que habitam o Sul do Sahara. Anansi é uma deidade de aparência aracno-humanoide, que tem o papel de contadora de histórias e criadora do mundo-teia, onde ponto e rede estão funda- mentalmente comprometidos. Como Maia, Anansi criou o mundo sem esforço e não o ancorou emuma ordemdefinitiva. Se sua criação falhar, a aranha recolherá seu fio, desmontando e recriando o mundo sempre que necessário. * Pawa é o criador de todos os seres, mas também, guardião do mistério da arte de tecer os paramentos usados pelo povo asha- ninka. Entre outros povos originários que habitam o atual ter- ritório brasileiro, os ashaninka se distinguem pela singularida-
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