Catálogo Bienal Fibra 2025
CATÁLOGO FIBRA . II BIENAL DE ARTE TÊXTIL CONTEMPORÂNEA. 2025 8 Em outubro de 2025, um grupo de 48 mulheres e eu nos reuni- mos durante três tardes em umminicurso conduzido por mim, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. Com o título de “Reiniciar o Mundo com as mãos”, a atividade alinhava-se ao eixo temático da segunda edição da Fibra Bienal de Arte Têxtil Contemporânea que relacionou poéticas têxteis ao desafio da sustentabilidade frente ao consumo. Mesmo com inscrições abertas ao público em geral, lá estáva- mos, apenas entre mulheres, no âmbito de uma mostra também produzida por mulheres, a começar por Kátia Costa que a idealizou e conduziu. Um dos encontros, o segundo, foi focado em observar como ar- tistas contemporâneos têm usado o têxtil para desfiar o tema da sustentabilidade, enquanto os outros dois foram destinados a um passeio pelo simbolismo mítico e político dos gestos de fiar e tecer. Assim, no primeiro dia de trabalho, olhamos para mitos cosmo- gônicos oriundos da África, Oriente e Américas, nos quais se des- taca a figura da Aranha Tecelã, deidade fiandeira à qual diferentes sociedades atribuem a criação do mundo. O terceiro e último dia foi dedicado à história da roca de Gandhi (ou charka, termo de origem persa corrente na Índia), um modelo de roda de fiar portátil que se converteu em símbolo de libertação da nação indiana do domínio inglês. São esses dois temas, da Aranha Tecelã e da roca de Gandhi, de que tratarei nos próximos parágrafos Antes disso, trago algumas palavras de cunho geracional sobre a percepção do tema da sustentabilidade, cuja emergência e mun- dialização vem se produzindo dentro do intervalo de uma vida. * Minha forma de vida é, desde sempre, essencialmente urbana. Não cultivo alimentos em casa e dependo do consumo diário de produtos, energia, transporte, dados e tantos outros recursos co- mercializados em nossa sociedade pós-industrializada, informa- cional e capitalista. Nasci no século XX e alcancei o novo milênio aos 34 anos. Por mais de três décadas, comi, bebi, consumi energia, desloquei-me por ar e por terra; comprei produtos fartamente embalados e pós- -industrializados; utilizei sprays sem pensar no destino dos gases emitidos, entre outros comportamentos normalizados no mundo em que vivia. Próximo da virada do século, lembro-me de passar a ouvir, com maior recorrência, a expressão “pegadas ecológicas”, ao mesmo tempo em que observava a divulgação de estudos científicos sobre a presença de um buraco anormal na camada de ozônio. Até então, jamais havia me ocorrido que a atmosfera pudesse ser violada e que as calotas polares pudessem desaparecer por efeito da ação humana. Impactadas, as pessoas se perguntavam se seria possível que nossa espécie tivesse tamanho poder e eu própria me pautava essa Maria Helena Bernardes Artista visual, escritora e professora. Junto à escrita literária, seus ensaios e crônicas giram em torno de experiências artísticas, narrativas orais, reflexões sobre a arte e ações em arte contemporânea compartilhadas pela artista com outros autores. Entre suas publicações constam: “Vaga em campo de rejeito” (2003), ”Pequenas crônicas à distância e daqui mesmo” (2003), “Histórias de Península e Praia Grande/Arranco” (2009), “Dilúvio” (2010), “Ensaio”. (2011), “A estrada que não sabe de nada”(2011), “A Dança do Corpo Seco” (2019), “Esse Mato nos Fundos de Casa (2021), “Vazante-Crescente” (2023). Reiniciar o mundo com as mãos
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