0108 andar e ficou olhando a pintura, clic. Um senhor trabalhando em uma obra passando com um carrinho de mão, clic. Uma senhora mais velha acompanhada de umamais nova (pareciammãe e filha) depois de olharem comentaram algo, clic. Uma moça muito bonita, com roupas tradicionais, apenas com o rosto de fora, passou olhan- do para o mural, clic. Três jovens passaram amontoados em uma única moto, clic. Quando o senhor do carrinho de mão voltou, acho que esqueceu algo e deixou o carrinho parado em frente ao muro, rendendo boas imagens. Clic, clic, clic. Eu ia registrando todos esses ocorridos. Essa parte final, de ver gente em interação com a obra, é bastante interessante. Sempre émuito prazeroso ficar de longe ape- nas olhando como as pessoas reagem diante desta situação atípica. Ficou marcado na minha lembrança, de forma mais peculiar, um momento quando havia finalizado o painel. Já começava a escu- recer, o calor havia baixado um pouco. Do outro lado da rua, em frente a um muro todo cinza claro e crivado de balas, vi passar duas mulheres vestidas de burca preta. Com a luz mais fraca, as silhuetas delas mais pareciam duas sombras fazendo contraste com aquele cenário de filme de guerra. Esse ocorrido me pareceu bastante simbólico: aquelas paredes furadas representavammais de setenta anos de violência contra o povo da Palestina. Aquelas mulheres representavam a imposição do sexo masculino impe- rando há milhares de anos, fazendo o sexo feminino viver a per- manente invisibilidade, sem rostos, sem protagonismo. É incrível essa capacidade do ser humano de sofrer repressões severas, se sentir injustiçado e reagir cometendo os mesmos erros, apenas de maneiras diferentes. Terceiro Dia No terceiro dia já estávamos bem mais relaxados, sem nenhum tipo de tensão quanto a nossa presença estrangeira. Já tínhamos
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