125 Zamalek Depois de uma hora e pouca de viagemno Uber, finalmente cheguei à casa da Fernanda. Por sorte, o motorista apenas estava driblando o louco tráfego do Cairo. Fiquei bastante aliviado de ter chegado. A Fernanda foi me atender, subimos no seu apartamento. Naquela ocasião ficamos só eu e ela. O Pablo, também embaixador brasilei- ro, estava ocupado; a Sheila ainda estava em Beirute; o namorado da Fernanda estava na Itália. Não fiz essa revelação para a Fer- nanda e talvez ela não saiba como foi importante aquele encontro para mim. Eu estava há vários dias sozinho no apartamento em Maadi, sem ninguém para interagir. Sentia-me completamente deslocado em um lugar onde tinha pouquíssimo vínculo com as pessoas. Deveria ter entrado em contato antes com ela, mas por algummotivo não o fiz. Naquela noite, tomamos um vinho, comemos alguns petiscos, escu- tamos música brasileira, ficamos filosofando sobre coisas da vida. Dei uma leve desabafada de como estava me sentindo depois de tanto tempo longe de casa. Até contei a Fernanda sobre algumas angústias que estavamme inquietando naquele momento, mesmo sem ter tanta intimidade. Precisava externar tudo aquilo. Tive a im- pressão de ela também estar um pouco isolada, sendo assim uma companhia bem agradável para nós dois. Aqueles desabafos me fizeram muito bem, porque desde quando comecei a me sentir an- gustiado durante a viagem, não consegui conversar com ninguém sobre isso. Botar para fora é sempre uma espécie de grande alívio. Vimos até a clássica entrevista do Caetano, quando tinha uma ca- beleira encaracolada gigante. Acho também que ele estava sobre o efeito de alguma droga, chamando o entrevistador de burro e falando diversas bizarrices. Ao final, perguntam “Quem é Caeta- no?”. Depois de uma longa pausa dramática, responde “sou eu”.
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