124 Já estava indo para quase uma hora de viagem e omotorista, para quebrar o gelo, começou a falar comigo como se eu dominasse o seu idioma. Às vezes entendia apenas umNeymar ou Ronaldinho perdido no meio da frase, com ele repetindo esses nomes várias vezes com ênfase. Meu celular estava com a bateria baixa, não via a hora de chegar. Passamos por diversos lugares estranhos, aumentando o meu desconforto. A essa altura da corrida comecei a ficar desconfiado que o motorista estava com a má intenção de me levar em algum lugar para assalto ou algo semelhante. Comecei a pensar em estratégias caso ele parasse o carro. Andá- vamos bem devagar às vezes, por causa do trânsito frenético do Egito. O trânsito do Cairo em horários de pique é algo surreal. Uma cidade com aproximadamente dez milhões de pessoas e que, até onde sei, não existia revezamento de placas, como em São Paulo ou outras grandes cidades. Nesses horários de maior fluxo tudo andando devagar, todo mundo buzinando, xingando o tempo todo. Sinaleira quase ninguém respeita em lugares sem fluxo intenso de veículos. Esse era o único motivo para crer na boa fé do motorista. Achava que ele podia estar desviando do trajeto para fazer caminhos alternativos que fugissem um pouco das fileiras quilométricas de veículos. Era realmente uma sensação muito desconfortável estar naquele veículo, com aquelas paisagens opressivas de uma grande capi- tal muçulmana, junto com um desconhecido sem falar nenhum idioma no qual pudesse me comunicar. Me senti completamente deslocado, como se toda a minha referência cultural não se en- caixasse na vida que acontecia nessa parte do mundo.
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