130 em interação, o medo da solidão e uma esquina chamada sauda- de. Quem sabe o tempo seja o ancião da natureza, já bem idoso, olhando a chuva cair devagar ao final de outono. Por que ele nun- ca me perguntou o motivo de às vezes eu ser tão brusco com ele? Ele nunca me perguntou, mas se perguntasse diria que é por ele me dar tantas expectativas que já não consigo ficar muito tempo só para poder conversar com as plantas. O tempo replicaria: mas você deve estar comendo cogumelos! As expectativas quem dá é a sociedade e você não conversa com as plantas porque elas não fa- lam. Eu me sentiria um tolo ao discutir com o todo poderoso tem- po, mas ainda assim teria argumentos: Beleza! A parte da socie- dade posso aceitar, porém, em relação às plantas, vi em um livro, que me pareceu bem convincente, que a vida vegetal é bem mais complexa do que conseguimos perceber, com memória afetiva e trocas de interações com a gente; se é verdade, como não possuo mais habilidade para essas percepções? O tempo assumiria um ar pensativo e diria: sou bem amigo das plantas, já tomei chá com elas diversas vezes, são muito recepti- vas e humanistas, coisas que andam se perdendo; mas onde dia- bos você leu sobre isso? Eu responderia: você o todo sábio tempo, o mais inteligente de todos os tempos, nunca leu esse livro? Pois deveria, se chama “A vida secreta das plantas”. O tempo diria sur- preso: Ah sim! Lembrei agora que o vento me recomendou esses dias, dizendo ter gostado muito, mas ainda não tive tempo de ler. Agora eu só pensaria: o tempo deu para tirar comigo, ele poderia ler a biblioteca de Alexandria inteira. Depois eu responderia: mas você não dá mais nem tempo para as pessoas lerem, elas estão sempre tentando agarrar ilusão e com uma ansiedade que me pa- rece não ser a solução. Nesse momento o tempo assumiria um tom mais formal, mas bem humorado: Agora toda a culpa é minha! Vo- cês precisam ter autonomia de pensamento e não ficar esperando que eu lhes dê todas as respostas. Agora eu ficaria calado e pensativo. Depois, olharia o tempo e di- ria: você é realmente um sábio, jamais impôs sua sabedoria sobre
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