146 Os indianos são realmente muito fissurados em tecnologia, sendo a temática principal dos desenhos do painel que estávamos pin- tando. Lembro do pessoal fazendo altos robôs super realistas, com efeitos de laser e luzes coloridas, máquinas espaciais voadoras, parafernálias metálicas. Parecia algo do filme “Star Wars” ou uma cena de ação de super-heróis da Marvel. Como esse é um tema que não me encanta muito, fiz um pássaro perdido no meio daquela loucura toda. Gosto de criar novas espé- cies de animais e plantas, dando a ideia de uma possível vida em outro planeta. Portanto, meu pássaro era bastante estranho, não remetendo a uma espécie já conhecida. Parecia um animal do do- cumentário “Aves do Paraíso”, quemostra várias aves surrealistas, encontradas apenas na Indonésia, Austrália e Papua Nova Guiné. Eu tinha feito com uma predominância da cor vermelha, (talvez inconscientemente tenha colocado para representar sangue) em um contraponto de como a euforia por tecnologia que acaba des- truindo o meio ambiente. Esse tipo de assunto é muito recorrente no meu trabalho. Isso causou um desconforto no Omkar. Ele che- goume perguntando por que aquele animal estava ali perdido. Di- zia achar a ideia meio deslocada do contexto geral. Durante o pro- cesso de pintura, ele já tinha me questionado algumas vezes, mas eu não falava dessa crítica da questão tecnológica para não criar polêmica no evento de tecnologia. Afinal, a temática principal de todo o evento era essa. A minha ideia era fazer uma crítica sutil, podendo ser interpreta- da de diversas maneiras. Não fiz nada muito direto para não criar problemas. Era apenas um pássaro vermelho no meio de tecnolo- gias. Tanto que ninguém estranhou, além do Omkar. No segundo dia de pintura ele já havia me sugerido colocar um laser saindo do bico da ave e atingindo algum objeto. Falei no co- meço que talvez fizesse, mas acabei não fazendo. Agora, na finali- zação do mural, era a hora de ele me questionar novamente. Não tinha mais para onde correr.
RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=