165 Serotonina Minhas cargas de serotonina estavam cada vez mais baixas à me- dida que se aproximava meu retorno. Era como se tivesse utili- zado todas as reservas desse hormônio e agora ele estivesse em falta. Uma espécie de ressaca. Me sentia meio melancólico, com a sensação desta viagem ter feito uma enorme mudança na minha forma de ver a vida, mas ainda não sabia bem como digerir tudo isso. Na verdade, não tinha tido a ocasião de parar para refletir sobre como foi o impacto disso em mim. Todas as experiências ti- nham sido intensas, precisando agora de um período para enten- der melhor quais seriam os desdobramentos. Pensava em como eu reagiria às velhas amizades, aos familiares, aos lugares; como lidaria com esse fluxo de sentimentos novos. Tinha a sensação que tudo seria completamente diferente de agora em diante, como se o passado fosse um antolho que me cobriu parcialmente a visão durante décadas. Já havia tido essas percepções anteriormente, mas sempre tentei não pensar muito sobre isso. Nesse momento vinham com tanta força que era difícil de segurar. Era como se an- tes eu tivesse usado as distrações para me anestesiar, na tentativa de adiar algo inevitável. É impossível viver sem pensar que o futuro vai ser sempre algo di- ferente, mas a forma como estava me sentindo agora era destoan- te. Parecia que não me sentiria mais identificado com as relações antigas, havia acabado um relacionamento durante a viagem, es- tava com o pé machucado sem saber se ia ficar com sequelas, esta- va perto de completar trinta anos, chegaria um dias antes de uma virada de ano, não tinha perspectiva nenhuma de trabalho, tinha gasto todas as minhas economias, tinha vivido algo que foi um di- visor de águas na minha história. Erammuitas, muitas mudanças ao mesmo tempo. Precisava encontrar alguma harmonia para me sentir bem novamente, no entanto me faltava algo concreto para me apegar.

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