170 não falo dos meus triviais problemas existenciais românticos ou financeiros de classe média. Não que esses sentimentos não sejam autênticos, mas sempre baseamos nosso termômetro de felicidade e tristeza a partir dos privilégios ou prazeres obtidos no passado. Para alguém que teve comida, chuveiro quente e roupa de cama lavada, terminar um relacionamento é motivo de grande tristeza. Para quem vive na rua da amargura, apenas ganhar uma coberta ou prato de comida pode ser motivo de felicidade. As noções de satisfação de uma outra pessoa não podem ser medidas profunda- mente apenas pelo imaginário. Pode se ter uma pequena noção, mas jamais chegar à essência de um pensamento alheio. A vida é misteriosa. Como alguém que perdeu a visão depois de enxergar consegue seguir adiante? Como alguém que viu com seus próprios olhos o horror da guerra consegue viver com isso? Como alguém que ficou tetraplégico consegue achar motivações? Quão compli- cado deve ser lidar comumestupro ou quão difícil deve ser encon- trar esperança depois de perder um ente querido precocemente? Alguns não conseguem seguir em frente, mas muitos vão até onde é possível continuar vivo. Essa introdução foi para inserir uma das últimas experiências ocorridas em Mumbai, uma das mais impactantes por sinal. Foi o momento de derrubar de vez ou me deixar bastante calejado. Omkar nos disse que antes de ir embora precisávamos conhecer a mesquita Haji Ali Dargah, uma construção religiosa muçulmana dentro do mar. Perguntamos ao Omkar como funcionava. Ele ex- plicou que ficava a uns quinhentos metros da costa, tendo acesso andando por uma via que chegava até lá. Omkar estava ocupado para nos levar, mas chamou seu amigo Miraan para nos guiar. Ainda faltavam alguns dias antes da volta, mas esse foi o último acontecimento narrável emMumbai. Miraan passou na casa onde estávamos hospedados. Dali pegamos um tuc tuc para ir até a famosa mesquita dentro do oceano. Haji Ali Dargah é um dos lugares mais turísticos da cidade, quase todo
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