022 alcançasse de surpresa em uma esquina qualquer, deixaria algo irrelevante nessa existência. Queria algo a mais, não me achan- do capaz de conseguir algum resultado expressivo e consistente. Era inevitável pensar que a minha continuidade no universo dos vivos poderia estar em jogo com a decisão de aceitar essa viagem. Refletia sobre quantas iniciativas arriscadas foram tomadas para chegar aonde chegamos. A água é a substância que mais ocupa es- paço no nosso planeta, cerca de setenta por cento. Se a humani- dade não tivesse coragem de atravessar os continentes – em uma era onde se acreditava em criaturas abissais gigantes engolindo navios ou que chegaria em um determinado lugar no mar onde haveria umpenhasco comuma cascata infinita – talvez hoje ainda viveríamos na caverna de Platão, em diversos aspectos. Penso ser um dos maiores talentos humanos a curiosidade. Pen- sei em quanta gente que passa décadas supervalorizando a esta- bilidade e acabampegas desprevenidas por um câncer ou por um acidente. E quantas fogem do padrão de segurança e não sofrem uma grande fatalidade. É claro que não estou disposto a passar caminhando despreocupado em meio a um tiroteio contando apenas com o meu destino. Porém, para chegar a caminhos sin- gulares, é preciso um pouco de risco. Andava lá pelos vinte e nove anos, bastante melancólico, como falei. Ainda não tinha recebido a resposta de ter passado no edi- tal que me levaria ao Oriente. Por essas alturas estava com os sentidos muito atentos às coisas mais insignificantes, pensando muito no que aconteceria se morresse hoje. Nesse período escrevi algo. Foi uma maneira de liberar as emo- ções que vinha tendo, um fechamento simbólico de ciclo, acal- mando um pouco as inquietações que sentia sobre a morte. Desviar atenção da vida para pensar em um fim definitivo, nor- malmente é algo que nos afronta na velhice, com a idade já mais avançada. Porém, aos vinte e nove anos me deparava com essas divagações.

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