027 Após Sheila me recepcionar, me mostrou o quarto onde pode- ria descansar temporariamente, mas em seguida eu precisaria mudar para outro. Consegui pegar no sono um par de horas. Es- tava ainda bastante agitado com tudo que havia passado, assim não deu para dormir muito. Sentia vontade de experienciar as possibilidades nesse momento. Tinha passado por incontáveis medos, aberto mão de várias coisas para ter essa oportunidade. Quantas situações inimagináveis poderiam ter acontecido me impedindo de estar onde estava agora. Tanto antes de iniciar a viagem, quanto durante o deslocamento. Pensava sobre esses aspectos. Na manhã seguinte, tomamos café da manhã colonial, junto a uma amiga alemã da Sheila, hospedada na mesma casa. Não tive muito contato com ela, por ter ficado apenas mais uns dois dias. Descobri nessa ocasião que em umas duas semanas ficaria no lugar da menina alemã o carioca Alberto Pereira. Um amigo ar- tista, que trabalha com lambe-lambe, com mensagens muito po- litizadas. Uma de suas obras mais conhecidas é o Jesus Pretinho, no qual ele representa Maria de Nazaré com um bebê negro nos seus braços. Eu tinha ficado em sua casa um ano antes em Ni- terói, no Rio de Janeiro. Era uma coincidência e tanto. Nesse mesmo dia, depois de terminada a refeição matinal, quan- do fui sair para dar uma volta na rua fiquei impressionado com os corredores entre cada andar. Não tinha percebido na noite anterior por estar escuro. Estávamos no terceiro andar e não ti- nha elevador. Quando saí, olhei para cima, percebendo não ter teto na parte onde ficavam as escadas de acesso aos andares; os telhados eram reservados apenas para os apartamentos. Assim que, quando alguém descia ou subia as escadas do corredor, era possível olhar para cima e ver o céu. A Sheila me falou o motivo disso: muito raramente chove no Egito, mas quando isso aconte- cia era um dilúvio que nem Noé conseguia resolver.

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