030 aviso. Era um chão falso sem sinalização. Quando ela pisou, caiu direto no solo em uma altura de uns três ou quatro metros. Moataz, um dos diretores da Bienal – em parceria com o escritor sueco Simon Njami – estava apavorado por causa da responsabili- dade da organização em relação a isso. Eu o observava com sua ca- misa florida, bermuda curta e sandálias, andando de um lado para outro com as mãos na cabeça e o celular no ouvido, em uma apre- ensão que me afetava simultaneamente. Por sorte, no fim a moça ficou bem, commachucados sérios, mas todos reversíveis. Depois fomos a um aniversário muito animado de uma amiga da Sheila, com música, danças, comidas típicas árabes. Fomos algu- mas vezes também ao centro do Cairo, onde tinha gente que não acabava mais. O tráfego da cidade era uma confusão, com tuc tuc, carros e motos buzinando constantemente, uns atropelando os ou- tros. Quando ia atravessar a rua era um perigo, um amontoado de gente. Ninguém reduzia a velocidade, mesmo te vendo passar. Era um salve-se quem puder. Pegar transporte emhorário de pique era algo quase impossível. Também era muito comum presenciar qua- se diariamente dois homens quase brigando, na porrada, por causa de alguma desavença de trânsito. Nunca vi iremàs vias de fato, mas viviam de discussão. Eram muitas novidades nessa parte do mundo onde nunca havia imaginado estar. Lembro-me de uma ocasião em um café da ma- nhã quando dei um abraço na Sheila e disse: “Se não fosse por você, talvez eu nunca viesse a conhecer essa região”. E ela prontamente respondeu: “Talvez conhecesse sim”. Na tarde seguinte, ela me pediu para fazer um texto para ser co- locado na inauguração oficial da Bienal do Cairo. Queria escrever algo relacionado com o tema dessa edição, mas também relaciona- do com o que estava sentindo a essa altura da viagem. Levei alguns dias fazendo. Quando finalizado, passei para Sheila fazer a tradu- ção. O texto antes de ser traduzido foi esse:
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