Tive que voltar às páginas e reler algumas vezes para compreen- der por que Amaro desejou saltar. Por que ele, que não é adepto de fotos turísticas, quis forjar uma foto/imagem original nas pirâmides do Egito, lugar cuja única originalidade possível seria a dos escravos ressuscitando da barriga do deserto para desenhar seus rostos com a areia dos faraós. Mas Amaro quis saltar. E, como não funcionou na primeira, tentou mais. E então torceu um pé. Dali em diante é esse pé que não pisa o chão que conduz a narra- tiva de um jovem artista em busca de viver. Amaro deixa Porto Ale- gre, a provinciana e racista cidade onde nasceu e se criou de forma nem provinciana nem racista porque seus pais, Rosina e Luiz, deram passos ousados para arrancar-se desse destino. Nesse ponto, Amaro, filho único de pais que acolhem criação e caos como parte indissoci- ável de uma vida pautada pela coerência, teve muita sorte, embora sorte não é nem de longe sinônimo de facilidade. Sorte é só isso, você pode ignorar ou você pode ir. E Amaro é gente que vai. Quem é aquele Amaro que vai? Um artista em ascensão, com tra- balhos reconhecidos planeta afora, com sua muito particular visão de mundo, no caso dele um mundo próprio inteiramente incomple- to que transtorna paredes, muros, portas e janelas em diferentes lu- gares do globo. Com tanto talento e originalidade que essa busca lhe permite viver nas franjas capitalistas onde um jovem adulto precisa pagar aluguel e contas. Amaro parte porque está beirando os 30 anos. E embora esses 30 anos tangenciam toda a narrativa que faz com um pé no chão outro Um pé que pisa, outro que não Eliane Brum
RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=