no ar, só sabemos que significam um portal inevitável que ele ao mesmo tempo teme, ao mesmo tempo deseja. A viagem por países do Oriente Médio, alguns deles em guerra ou em vias de guerra, é a pro- va de que os 30 anos não o pegarão semalguma grande aventura para contar aos netos que talvez nunca terá. Ele mira a barriga do monstro porque precisa que ele, o monstro, documente que Amaro não che- gou aos 30 sem viver. Assim, cada vez que Amaro quer se lançar para longe de uma lógica em que 30 anos significam algo, mais ou menos do que 23 ou 54, se enrola na lógica que acredita desprezar. O pé fica preso. Amaro, portanto, está vivo, já que a confusão é o grande teste do viver. Estar saudável ou deprimido, isso pouco diz. Estar confuso, sim. Se está confuso, está tudo bem. O mais fascinante dessa narrativa que Amaro decidiu fazer pelas letras, pela escrita, é esta: umhomem jovemcriou ummundo que não existia – e graças a ele agora existe – em que seres imaginários vivem com humanos imaginários numa natureza imaginária. Se Amaro era umadolescente quando o grito por umoutromundo possível atraves- sou particularmente Porto Alegre, ele ousadamente criou ummundo impossível, porque mais do que qualquer dos filósofos, antropólogos, cientistas sociais, escritores, intelectuais e ativistas de todo tipo que se reuniram no Primeiro Fórum Social Mundial, em 2000, na cidade de Porto Alegre, naquele tempo remoto um centro de esquerda, Ama- ro intuiu que um mundo possível haveria que ser impossível. Só as- simpara que pudesse exercer seu papel no campo das possibilidades. Tão cedo Amaro gestou um mundo inteiro absolutamente pertur- bador e brilhante. Mas o deus deste mundo estava com medo de fa- zer 30 anos e, talvez, virar mais um. Pior, ele passou a pensar muito emmorte. Será que ignora que só commuita pulsão de morte alguém consegue parir mundos? Volto àquele salto tão besta. Aquele que mostrou ao criador que era humanamente frágil, não importa o fato de ser capaz de desenhar estranhos belos vermelhos pássaros gigantes em paredes arrebenta- das a balas. Pé machucado, Amaro tinha uma boa razão para voltar ao apartamento em Porto Alegre sem a vergonha da desistência. Era saúde, força maior. Mas ele sabia que já não havia mais para onde

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