050 de expressão que o país estava passando. Depois, refleti que re- almente não tinha visto nenhuma pintura mural desde a minha chegada – fora as realizadas dentro do Darb 1718. O Alberto tinha me alertado para esse escrito e tentei tirar uma foto, sem conse- guir pegar a câmera a tempo para registrar. Em poucos segundos, já havia uma casa cobrindo essa intervenção. Após atravessar esses vilarejos, voltamos para outra parte do de- serto, que nos levaria a residência beduína. No caminho, o nosso guia inventou de dar um trote comanimal que ele estavamontado, fazendo os nossos trotearam para acompanhar. Nesse momento doeu bastante o pé, mas deu para segurar os incômodos. Chegan- do lá, finalmente descemos da montaria e ficamos conversando. O nosso condutor falou várias histórias com um tempero bastante dramático. Uma contada por ele foi de seu irmão mais velho, ca- sado há três décadas com uma mulher. Toda a família era muçul- mana ortodoxa e ele convivia há trinta anos com a mulher de seu irmão, mas não conhecia o rosto da cunhada. Não sei se era real ou ele contava para nos impressionar. Era um relato intenso: você conviver comalguém tanto tempo e não conhecer suas expressões faciais. Tomamos um shay, fumamos a shisha (shay é chá e shisha é nar- quilé). Conversamos mais um pouco. Estava perto do pôr do sol e ouvimos a entoação das rezas muçulmanas, vindas de longe da cidade, todas sendo cantadas juntas, formando umúnico som con- junto. Foi ummomento incrível. Em seguida, o sol começou a des- cer no horizonte e voltamos à montaria para começar o retorno. Pegamos o deserto de novo para voltar. Estava caindo o dia, começava a noite. Aquele final de tarde cor de cobre, com as dunas tingidas na mesma tonalidade, davam ao lugar um ar místico de atemporalidade, onde tudo está onde deve- ria estar e permaneceria estando, independente do desenfreado progresso imposto pela civilização. Progresso que destrói toda a

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