voltar. Quando partimos, a materialidade segue, mas é só ilusão. Par- timos deixando tudo aos pedaços. E, se interrompemos a viagem, ain- da assim serão com os pedaços do que um dia chamamos vida que teremos que lidar. Amaro segue. Com medo, com dilemas, com dores, às vezes com encontros e alegrias. Duvidoso o tempo todo. Como deve ser. Egito, Lí- bano, pra onde mais? A Síria, finalmente, pula Amaro, que não ficou tão triste assim. A Síria o assombrava. É então a deslocada Índia que o invade como um alien, cada tentáculo lança especiarias transtornan- tes de cores e cheiros improváveis. Em algum momento a conversa com o curador que não entende por que ele não faz um desenho-denúncia dos horrores das guerras. O pobre que não compreende que nada pode ser mais disruptivo do que gigantescos pássaros que não existem num território em que as pessoas matam por dogmas. Com um pé no chão e outro no ar, Amaro fez sua marca no Oriente Médio, enlouquecendo muros, transtornando fachadas de prédios e de escolas e de casas, inoculando a ideia radical de que, se podemos sonhar, podemos mudar tudo o que nos oprime e esmaga. E então já não é possível adiar a volta para a casa que não é mais casa, para a cidade que não é mais a sua, para si mesmo que já não é nem si nem mesmo. Voltar antes que outro ano comece e o encontre sem ter terminado o anterior, e aí será obrigado a entender que já faz um tempo que os anos deixaram de começar e acabar. Mas não naquele momento, naquele momento ele precisava de um pouco de mesmice para chegar aos 30, seja lá o que isso signifique. E aqui vai uma para você, Amaro: você nunca mais se sentirá tão velho quanto aos 30 anos. Espero que Amaro tenha percebido que o pé torcido pela violên- cia autoinfligida o salvou. Não haveria como proteger seu mundo em mutação se os dois pés estivessem enfiados no chão das guerras. Para viver e fazer viver há sempre que se manter um pé no ar.

RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=