Revista Palavra 11
palavra. sesc. literatura em revista. 2022. [4] Você chega com as mãos va- zias. Dá uma desculpa. Não conseguiu escrever nada. Sua vida anda tão atarefada. Eu pergunto se você tem um lugar só seu na casa. Como assim? Sei que às vezes não dá. Não tem espaço na fa- mília para ocupar com lite- ratura. Falo, assim, de uma “toca”. Um cantinho para você ficar um pouquinho, e as pessoas, finalmente, no- tarem que você está traba- lhando. Pode ser um cubí- culo, um cisco de parede, uma mesinha, uma estante. Ali você põe, por exemplo, os livros com que seu pai o presenteou. Uma fotogra- fia dele. Uma pintura, uma guia de santo, uma bíblia, uma caneta, um lápis, uma pedra que você trouxe da- quela viagem. Tudo é lin- guagem e inventário seu. Note como um mendigo, na rua, é todo mundo contra ele e o que ele faz? Levanta um castelo embaixo de um via- duto. Todo mundo vai achar esquisito, do nada, essa sua mania de propriedade. Com um tempo entenderão que isso faz parte de seu ofício e vão respeitar o lugarzinho que você, com as próprias mãos, levantou para dar en- dereço ao seu sonho. Cons- trua, também, vários cader- ninhos. Neles, mais listas: o caderno das coisas que eu deixei pelo caminho; cem anotações sobre o futuro; as fotografias que eu tirei, por escrito, do céu aqui visto do meu chão. Isso também é uma maneira de morar den- tro de um caderno, caso não seja possível ter a sua “casa própria” para uma rotina de escrita. Aí você me pergun- ta: e o que tem a ver tudo isso com a tarefa do capítu- lo ou do conto que você me passou? Afirmo, confiante: tenho certeza de que você conseguirá escrever. A par- tir, ali, do seu casulo inspi- rador. [5] Você se entusiasmou com a preparação da toca e dis- se que até umas plantas levou para lá. Eu aproveito para dizer que a gente não “escreve” um livro. A gente “inscreve”. Explico: levanta do chão. Finca. Instaura no solo. Palavra-raiz ninguém arranca. Busque seu reper- tório. Seu jeito de estar na página é seu jeito de estar no mundo. Você disse que, de fato, com um espaço só seu ficou mais produtivo o trabalho. Quando não estou escrevendo, estou olhando para as minhas fotografias. Estou acompanhando as narrativas das flores que se abrem a cada dia. Mas o mais difícil é sempre co- meçar. Qual a primeira fra- se? Como ir puxando uma oração da outra? Tenho uma ideia, mas não sei o que fazer com ela. Ela fica martelando no juízo. E nada de encontrar um verbo, um Marcelino Freire página 015 Eu aproveito para dizer que a gente não “escreve” um livro. A gente “inscreve”. Explico: levanta do chão. Finca. ritmo, um sentido. Eu digo que um conto nunca come- ça. Um romance também. Um verso vem de muito distante. E segue além. Um conto é feito entrar em um trem. Quando o leitor ou lei- tora chega à leitura de uma história, aquela história já está vindo de algum lugar. E, quando a leitura termi- na, o movimento continua. É isso. E enfatizo: um conto está sempre emmovimento.
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