Revista Palavra 11
palavra. sesc. literatura em revista. 2022. O segredo é o movimento. Você escolheu escrever so- bre um brinquedo quebrado. Retirado daquela sua lista, primeira, de lembranças. Daí, quando comecei a ler, você já estava lá com uma cabeça na mão, os olhos do boneco pulados do cor- po, e da barriga do morto saíam espumas coloridas. Gostei do centro nervoso da cena. Você disse que foi assim mesmo, daquele jei- to. Com dois, três anos de idade, você procurava o que tinha no peito das coisas. Continue procurando. Mas você diz que tem medo de se perder. Não saber para onde caminhar a narrativa. Se o trabalho não for para frente? E se eu morrer na curva? Eu, para provocar, solto mais esta no ar: uma história não vai para frente nem para trás. Uma história ondula. [6] Aí, depois de um tempo de muito trabalho, você che- gou ao esboço de um pri- meiro livro. Quando, para isso acontecer, descobriu que a inspiração é trabalho- sa. Vem porque você moti- va o ouvido. Os estímulos. Porque você agora lê mais poesia. No começo, você di- zia que não gostava tanto de poesia. Não sabia ler um so- neto. Não entendia por que o poeta abre espaços vazios na página. Eu mostrei para você que o poeta nos ensi- temusado demais o “mas”, o “pois”. Se viu que o “naquela noite”, “naquele dia” apare- cem em excesso. Aí é que eu recomendo trabalhar com outros ganchos. Outros co- nectivos. Vá à próxima fra- se a partir de diferentes fios de ligação. Você não pode deixar as suas ferramen- tas tão à mostra. Lá vem de novo um “de repente”. “Foi quando”, “a partir daquele instante” estão muito recor- rentes. Quebre essa energia falsa. E estabeleça outras faíscas sonoras. Você me olha e sabe quando eu es- tou em outro lugar. Dando meus vexames líricos. Em um mundo paralelo que, só dentro dele, o mundo real é possível de suportar. [7] Você entendeu que nemtodos os contos que escreveu en- tram no livro. Um livro não é um depósito de narrativas. No comecinho, você quis fa- zer uma mistura. Um livro com as crônicas, os contos e, quem diria, umas poesias. Pedi que você fizesse pastas diferentes. E sentisse como os escritos se uniam en- tre si. Ao final, o resultado mais pulsante foi o volume de contos. Alguns criados a partir daquela sua primeira lista. Dela, idem, você recu- perou a história de um pé de mulungu que viu a sua famí- lia crescer ao redor. Aquele pé já estava plantado lá an- tes de você escrever. Mais Marcelino Freire página 016 Quando o leitor ou leitora chega à leitura de uma história, aquela história já está vindo de algum lugar. na exatamente a perceber que escrever não se escreve só com palavra. Escreve-se com paradinhas, lacunas, silêncios, saltos. Com pon- tes invisíveis. Você pediu para falar mais sobre isto. Eu sugeri, na prática, para você grifar todas as conjun- ções do seu texto. Observar como você tem iniciado cada parágrafo (se houver parágrafos). Se notou que
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