Revista Palavra 11

palavra. sesc. literatura em revista. 2022. antigo do que você. A gente escreve para não esquecer, eu sempre digo. Ficamos, nós dois, mais de um ano re- escrevendo e relendo tudo. Uma escrita se revela duran- te a reescrita. Incessante. Aí tem uma hora que vem o lei- tor e a leitora para completar o nosso trabalho de memó- ria. Publicamos para passar adiante. Perpetuamos nosso mistério. Clarice Lispector o que nos deixou? Um misté- rio. Fernando Pessoa? Outro mistério. Noémia de Souza? Mais mistério poético. Você me olha de novo. Diz que eu sou um plantador de misté- rios. E aproveita para a gen- te decidir, de vez, qual título colocar no livro. Ô coisa di- fícil é nomear uma poesia, um conto, um romance, a reunião de umas histórias. Eu repito o meu pedido: faça uma lista de dez títulos. Para escolher o décimo primeiro. Você ri do que eu digo. E vol- ta com o mistério para den- tro da toca. E agora? [8] Depois de estar com um ori- ginal pronto nas mãos, você acordou com a seguinte alu- cinação. Que tal se o meu livro fosse trilíngue? Por- tuguês, inglês e espanhol. Eu, cercado do mundo real, fui objetivo na resposta. Fiz uma série de perguntas na mesma hora: você já falou para a sua casa? Já disse algo para o seu bairro? E para a sua cidade, já falou? Seu estado, seu país? Al- guém já ouviu o que você diz? O que, então, você tem a dizer para a Espanha, para a Inglaterra? Você rebate e diz que é legítima a vontade de ter sua obra publicada em outra língua. O livro nem editora tem e já quer pas- sear fora. Há quem me per- gunte sobre agente literário. Tem quem queira primeiro um assessor de imprensa. Fala-se muito em prêmio. Morre-se de medo do roubo. Como eu faço para registrar o meu trabalho? Importan- te, sim, tomar cuidado. Mas quem disse que alguém está interessado em roubar você? Se roubarem algo que você escreveu, é porque es- cancararam seu livro para ler. Agradeça. Tem questões em que eu perco a cabeça, bem sei. Mas alguém tem de falar. É muito blablablá. Você diz que entendeu. E aproveita para sondar para qual editora enviar o origi- nal. Você me pergunta se eu tenho algum canal. Al- gum contato. Tenho, sim, respondo. Os correios. Mas ninguém vai se interessar em receber os meus escri- tos. Quem sabe, talvez, com certeza, os Estados Unidos? [9] Seu livro saiu por uma pe- quena editora. Você desco- briu que várias pessoas há muito tempo lutam para fazer livros no Brasil. Aliás, olhe para a sua estante. Só tem livros de editoras gran- des? E as editoras miúdas? E aquelas feiras de selos al- ternativos? Hoje temos um aliado importante em nossa busca: o Google. É bom sa- ber que não estamos sozi- nhos nem sozinhas. Colo- que lá, por exemplo: “novas poetas em Maputo”. Noutra vez, procure: “revistas lite- rárias em Assunção, no Pa- raguai”. Mais: “travestis que estão escrevendo no meu país”. Tudo isso ajuda você a encontrar seus parceiros e parceiras de caminhada. Você veio me contar des- se novo selo e que o editor ficou interessado no seu livro. Fui com você olhar o catálogo. Bom não con- fundir editora com gráfica. Tem muita gente fazendo livro a toque de caixa. Sem qualidade, sem revisão, sem Uma escrita se revela durante a reescrita Marcelino Freire página 017

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