Revista Palavra 11
palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Uma vez um poeta disse que cada onda do mar é um escritor, uma escritora que chegou para somar. nenhum cuidado. Vi que essa editora que quer o seu livro é pequena, mas hones- ta. E preza pelas autoras e pelos autores que publica. Se não tem boa distribuição, digo para você chegar junto, meter a mão. O maior distri- buidor de livro, sabe qual é? O sovaco. Você de novo me olha sem acreditar. Coloque o seu livro debaixo do bra- ço e vá à luta. Eu te ajudei até onde pude ajudar. Com sinceridade e parceria. Digo para você, agora, ir em fren- te e cuidar da sua trajetória, única. Irei ao seu lançamen- to. Você me convida? [10]Uma vez um participante chegou à minha oficina de criação literária. Em um cer- to momento, levantou a mão para fazer um questiona- mento. Esperei, interessado, por sua dúvida. Eis qual era a sua pergunta: qual o cro- quete que a gente serve no dia da sessão de autógrafos? Ave nossa! Tem gente que quer escrever, mas não quer ler. Tem gente que quer pu- blicar, não quer escrever. E tem gente que quer o even- to. O vinho, o patê de fígado no dia do lançamento. Nós conversamos, lá atrás, sobre isso. Eu fui um dos primei- ros a chegarem à sua festa. Tinha muita gente. Familia- res, amizades. É assim mes- mo: esse é o nosso primeiro público. O que não quer dizer que sejam nossos primeiros leitores e leitoras. Há gente nunca cessa quando a gente resolve sair do lugar. Você veio me abraçar. E disse que lá, dentro do livro, tem uma dedicatória bem bonita para mim. Eu quis dizer que não precisava. Mas não disse. Eu já disse muitas coisas. Perdão se caguei muita re- gra. Juro que dei a descar- ga. E saí com seu livro como quem carrega uma criança. Eu e você de volta, juntos, à nossa infância. Marcelino Freire página 019 Marcelino Freire nasceu em 1967, em Ser- tânia (PE). Vive em São Paulo desde 1991. Escreveu, entre outros, Angu de Sangue (Ateliê Editorial, Contos, 2000) e Contos Negreiros (Editora Record, 2005), com o qual foi vencedor do Prêmio Jabuti. Em julho de 2010, lançou o livro de contos Amar É Crime , por meio do EDITH, coletivo artístico do qual é um dos participantes. Em 2013, lançou, também pela Record, o romance Nossos Ossos (Prêmio Machado de Assis). É o criador e curador da Balada Literária , evento que reúne, anualmente, desde 2006, uma centena de escritores, nacionais e internacionais, pelo bairro paulistano da Vila Madalena. Mantém o blog Ossos do Ofídio : www.marcelinofreire. wordpress.com . da nossa família que não lê o que a gente escreve. Mas está lá, presente, dando uma forcinha. Os nossos leito- res e leitoras aparecerão de onde a gente menos espera. Sem pressa. O mais funda- mental você já fez: pôs esse testemunho no mundo. Sabe as ondas do mar? Uma vez um poeta disse que cada onda do mar é um escritor, uma escritora que chegou para somar. E o mar é anti- go. E o mar é de toda huma- nidade. Um movimento que © Mário Miranda Filho
RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=