Revista Palavra 11

palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Ricardo Viel página 020 Art igo Um Saramago que emigrou para o Brasil O filósofo e escritor espanhol Miguel de Unamu- no apresenta, num dos seus livros, a fascinan- te ideia dos “ex futuros eus”. Ou seja, as muitas possíveis vidas que eu, você, qualquer um de nós, não chegamos a ter. Como teria sido a minha vida se meus pais não tivessem decidido mudar de cidade quando eu tinha 6 anos? E se eu não tivesse desistido da carreira de advogado, onde estaria hoje? Suponho que qualquer um de nós, em algum momento da vida, termine por se fazer esse tipo de questionamento. E me permito imaginar que tambémJosé Saramago, umdia, diante do jardim da sua casa com vista para o mar e os vulcões de Lanzarote, se perguntou: o que teria sido da mi- nha vida se eu tivesse emigrado para o Brasil? É uma história pouco conhecida, mas quando tinha 39 anos, José Saramago cogitou a ideia de deixar Portugal. “Estou a encarar francamente a hipótese de ir para o Brasil, a busca de vida me- lhor, nao de melhor vida”, escreveu numa carta dirigida a Nataniel Costa, em 27 de Fevereiro de 1962. Na mensagem escrita ao amigo (e patrão) que vivia na França, José lista a falta de pers- pectiva, os problemas pessoais e a vida cheia de obrigações como os motivos que o fazem pensar em abandonar a “amargurada e infeliz” terra onde vive. Portugal estava sob a ditadura de António de Oliveira Salazar fazia décadas. Após ter es- crito um romance aos 24 anos, Saramago havia abandonado vários projetos de livros e não volta- ra a publicar. Trabalhava numa editora exercendo uma atividade maçante e burocrática que termi- nava por ser um peso, mais um. Não enxergava nem para o país nem para si um futuro melhor. Enquanto isso, o Brasil era visto como o lugar das oportunidades. Alguns intelectuais, como Jorge de Sena, com quem Saramago se correspondia nessa altura, tinham se exilado no país. Talvez fosse esse o melhor destino, pensava. Não há registro de que a ideia tenha passado de uma vontade. Provavelmente José Saramago não chegou a fazer qualquer movimento no sen- tido de partir. Para o país, as coisas viriam a me- lhorar em 1974, com a revolução que devolveu a liberdade aos portugueses. O escritor ainda teve que esperar uns anos mais – e trabalhar muito – para que as coisas melhorassem na sua vida. Os Ricardo Viel

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