Revista Palavra 11
palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Emir Rossoni página 026 Conto Pintado foi Damião que batizou Damião encheu a cuia comágua quente e estendeu até o outro. Era hora de tomar um mate e discutir negócios de homens. E Pintado continuava no centro deles. Sem palavra para fazer quebrar o som do voo dos que- ro-queros, Damião voltou o olhar para Pin- tado. Mirou os olhos negros. Olhos velhos que muitas vezes só de olharem para si já sabiam qual era a vontade do dono. Então Damião desviou o olhar, pois não queria que o boi soubesse qual era a sua vontade no mo- mento. Passou pelo pescoço calejado de canga. Passou pelo Amadrugada já se ia. E com ela mais uma cuia. Logo apareceram os faróis do caminhão, olhos piscantes por entre as tábuas do piquete. Da- mião fez sinal para que encos- tasse de ré. Deram-se buenos dias e um quebra-costelas de negócio qua- se feito. “Tá ali adiante”, disse Damião ao recém-chegado. Pintado estava deitado. Boi grande, porém já sem força pra puxar o arado na terra dura nem pra puxar a carroça carregada morro acima. Tava meio sem saber se acordava ou se perma- necia com a barriga na grama aquecida até raiar o sol. Os dois homens chegaram per- to. Damião, dono do boi, parou diante do bicho e cruzou os bra- ços. Sorveu uma saliva que ain- da trouxe um resto de gosto da erva-mate. Pintado ficou para- do, apenas a testa erguida. Já o visitante andou devagar até bem perto da cabeça do boi. Inclinou-se na direção dele e se levantou logo em seguida. An- dou em volta. Atrás, deixou um rastro de orvalho caído. Dese- nhou-se um círculo no chão de grama. Pintado, no centro. Depois afastaram-se alguns metros. Emir Rossoni
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