Revista Palavra 11

palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Emir Rossoni página 027 couro malhado do lombo; tinha marcas de açoite, pois quando a força do boi não era suficien- te, a dor das chicotadas fazia a carroça andar. A cauda negra de ponta branca balançava de quando em quando, espantando os mosquitos que não se assus- tam com qualquer coisa. O chimarrão matava a sede de hospitalidade, e algumas pala- vras zuniram da boca de um ao ouvido do outro, que pela fraca luz não se pôde descobrir de que lado vieram e para que lado fo- ram. Também, não se carece sa- ber quem deu a palavra final ou quem começou o assunto. O que importa é que tudo esta- va acordado. E uma vez palavra dita, é negócio fechado. Então Damião olhou de novo para o bicho. Boi que tinha nome e nome Pintado que ele mesmo dera. Bezerro que lam- bia sua mão. Preto com pintas brancas. Filho da Pintada, vaca que dava até quarenta litros de leite por dia e que deu umbezer- ro quase igual a ela: mas não o nome: Pintado foi Damião que batizou. Tinha agora os cascos grossos e gastos, meio quebrados pelas pedras pontudas. Um tapinha na traseira e o boi se pôs de pé. Caminhou qua- se que sem precisar conduzir. O fim do piquete era o caminho Emir Rossoni é autor de Caixa de guardar vontades (vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura e do Prêmio Guarulhos de Literatura de Livro do Ano em 2019), Do- manda Nísio (vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura em 2018 e do Prêmio Bunkyo em 2020), e Erros, errantes e afins (Prêmio CEPE de Literatura 2020). Ministra desde 2016 a oficina literária “As duas histórias do conto” e o curso “Escre- vendo sem Inspiração”. diário de todo dia sob a canga. Mas nesse dia não tinha canga. Tinha um caminhão boiadei- ro com a porta de trás aberta e uma estradita de madeira que conduzia para o adeus. Pintado não deve ter estranha- do o caminho. Estava com Da- mião. E, com Damião, ia todos os dias. E, de noite, voltava para o cocho cheio de comida e o po- treiro cheio de grama tenra. Damião acompanhou o bicho rampa acima, que levava para dentro da carroceria. Entrou comele no furgão de tábuas. De- pois olhou outra vez nos olhos de Pintado. E pôde ver que os olhos do boi estavammudados. Por isso, deu logo as costas para o bicho e pôs-se rampa abaixo. Disse ao boiadeiro que ia se ser- vir doutra cuia. Sorveu forte de queimar a gar- ganta. Pois quando se pensa numa dor não se pode lembrar da outra. Ao terminar, encheu ligeiro a cuia com água quente outra vez. Alcançou para o outro que fez sinal de não com a cabeça e de vou-me indo com as sobrance- lhas. Foi então que Damião le- vantou a mão direita. Era a mão de dizer adeus. O homem entendeu e fez o mes- mo. Ligou o caminhão e acele- rou forte em primeira marcha. Não foi preciso ligar os faróis, pois o sol já mandava os raios estender delongadas sombras pela extensão do pampa. Mas Damião não havia erguido a mão para o homem que logo estaria já longe. A mão, Damião ergueu para o boi. Pois não tivera coragem de erguer outra vez os olhos e ver no olhar de Pintado um olhar de quem lia seus pensamentos. De quem sabia que o trabalho da- quela jornada seria outro. Um olhar de quem sabia que, de noi- te, não teria o mesmo cocho de comida e a mesma grama para descansar o corpo já sem ser- ventia. © Arquivo Pessoal

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