Revista Palavra 11
palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Marco Severo página 033 rer perto dos lugares que seus pares também ocupavam era um sinal de fraqueza e ajuda- va a espalhar a vulnerabilida- de e o medo. Antes de morrer, é preciso aprender a ser só. Caminhou porque já não im- portava o quanto de si alas- trasse pelas curvas da floresta. Sentia a visão turva e a fraque- za nas patas. Havia recebido seu último convite, o irrecusá- vel. O vento revolvia as copas das imensas árvores, mas nem assim o calor podia ser aplaca- do. E por dentro do animal, um frio. Um frio que o confundia todo. Morrer era uma missão privilegiada ou algum tipo de festa da qual se é o único con- vidado? Quando se virou para encontrar o seu destino, o ani- mal que sabia que ia morrer le- vantou a cabeça ao ouvir mais uma vez o somque não perten- cia àquele lugar. O homem da pata explosiva se mostrou des- nudo e só. Também ele estava ferido de morte. O animal que sabia que ia morrer se aproximou do ho- mem. Seja como for, já não há mais riscos, pensou. O homem não sabia que o bicho não ofe- recia ameaça, e com sua arma destroçada deixada em algum lugar da floresta, não lhe ca- MarcoSevero é professor formado emLetras/ Inglês pela Universidade Federal do Ceará. Temcontos publicados no Brasil e no exterior. Colabora com diversos sites voltados para li- teratura. É também professor e orientador de alunos de Escrita Literária. Publicou os livros: Os escritores que eu matei (2015, crônicas), Todo naufrágio é também um lugar de che- gada (2016) e Cada forma de ausência é o retrato de uma solidão (2017), de contos, e Coisas que acontecem se você estiver vivo (2018, crônicas). Retornou ao conto em Se eu te amasse, estas são as coisas que eu te diria (2019). Em 2020 publicou sua primei- ra novela, Um dos nomes inventados para o amor , e, em 2021, estreou no realismo mágico com o livro de contos O silêncio da- queles que vencem as guerras . Site oficial: www.marcosevero.com.br . bia fazer mais nada. Ouviu novamente o animal, agora mais perto, e fechou os olhos e abriu a boca, como fazia aos domingos quando recebia na boca uma hóstia. Os passos do animal que sabia que ia mor- rer se aproximavam. Parados um diante do outro, o animal rugiu. Um longo canto, quase um lamento. Depois virou- -se para o lado e deitou-se no chão, os olhos vítreos miran- do o nada absoluto. O homem, agora sem a pata explosiva, só voltou a abrir os olhos mui- to tempo depois. Estava todo vivo. Todo vivo diante do ani- mal morto, que deixou intoca- do, para que o solo cuidasse de decompor. Voltou à floresta ainda muitas vezes com armas infalíveis, mas quando fechava os olhos para dormir era acompanha- do de todos os pesadelos, o que só renovava o seu desejo ao despertar. Sabia que seu destino era ser atormentado por seus mons- tros. Todos eles, ele mesmo. © Arquivo Pessoal
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