Revista Palavra 11
palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Marco Severo página 032 Conto Para onde vão os que não choram nas despedidas? Ao primeiro tiro sucedeu-se um segundo, e foi este que fez com que os pássaros saíssem dos galhos das árvores deso- rientados, sem rumo. Quem tenta escapar não escolhe destino. Muitos metros abaixo, o ani- mal ferido corre. Apesar da dor, desvia-se das árvores com a destreza do seu instinto inato. Não olha para trás: de alguma maneira, sabe que re- tirar a atenção da sua escapa- da pode representar a vitória de seu algoz. Ouve o farfalhar das folhas secas, dizimadas sob o peso de sua pata, galhos e raízes das árvores quebran- do-se com a velocidade de sua passagem, mas todos esses sons não dizem outra coisa senão que a distância já vai larga. O homem ficou para trás, e sua pata explosiva de longo alcance está agora para além do encontro possível. Deu-se a vontade de recuperar o fôlego, e o animal que sabe que vai morrer cumpriu o seu próprio desejo. Não se nega a última vontade de qualquer ser, e era isso o que ele sabia dentro de suas certezas, que nem eram tantas. Aquele que precisa estar sempre em aler- ta, atento ao que está constan- temente à espreita, só conse- gue se preocupar com agoras. Mas foi porque parou que per- cebeu o quanto estava perden- do do seu próprio sangue, o que quer dizer: suas forças. E como só sente seu corpo molhado quando se banha ou atravessa rios, ou quando sacia sua sede à margem de águas correntes, sentia que seu pelo molhado era alguma coisa outra, mas isso o animal não entendeu. Sabia, no entanto, que era pre- ciso não estar mais ali. Mor- Marco Severo
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