Revista Palavra 11
palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Daniela Galdino página 046 esquadras minha mãe serenava desgostos criando barquinhos de papel as tardes fagulhavam artesanias em suburbanos delírios infantis eu pegava um daqueles barcos singrava o Cachoeira acolhia heranças no fio das águas correntezas pariam enchentes roupas dormiam nas pedras mulheres difundiam cantigas, suspiros e preces de afogados por baixo das cinco pontes ouvia os passos conterrâneos balconistas, garis, forneiros hasteavam utopias retidas crepúsculo era despertador extraviava-me do possível a mãe nunca enoitecia sozinha de susto eu remava para casa folias corredeiras impeliam jatos de cintilações estelares avistava margens com dificuldade era preciso jeito ao criar espaços nutrido por refugos incertos o porto da minha mãe obstruía-se com as embarcações de ausências sonho duro a mulher do algodão-doce o olhar nas coisas preteridas seu rosto cravado na esquina de salto fosco-alaranjado percorre a cidade inteira o colorido morreu de asfixia baronesas levaram os pregões remosas palavras engancham feito garrafas pesadas e sujas contendo o ritmo das águas [dizem que estupro-doença-filhos] o calor afeta meu estômago vou pra casa devagar possuo diagnóstico: a moça é minha gastrite não há paz neste corpo a vida é um sonho duro recheio embolorado açúcar ferindo os dentes Poesia Daniela Galdino
RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=