Revista Palavra 11
palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Ana Laura Nahas página 064 Crônica Pequenas alegrias da vida adulta número 2 Houve um dia em que roubei do rapper o título do texto. Um dia de sol tímido, de cachos des- grenhados, boca nervosa, peso no ombro, vesti- do saco, vento sul. Um dia do carnaval que não tivemos, de fantasias em compasso de espera, do samba atravessado na avenida da existên- cia. Um dia como aquele, em que as pessoas morrem na gente, mesmo que continuem vivi- nhas da silva. Exatamente porque pesava o desespero dos novos tempos, eu sabia que era preciso olhar para dentro e agradecer por estar viva num tempo de dois milhões de mortos. Era preciso celebrar o privilégio de respirar apesar da su- focante e longuíssima quarentena, da política que estimulava o extermínio no lugar do cui- dado, das estatísticas sentadas no sofá da sala, dos que se foram, de tudo. Era preciso seguir. Roubei também o espírito do texto. Meu gato conjugava o verbo ronronar no presente do in- dicativo, e eu colecionava ausências em 300 dias de isolamento. Ausências de gente, de es- perança em dias melhores, de caminhar pela cidade, do gim às quintas-feiras, das madruga- dinhas, da música, de movimento. Ana Laura Nahas Embora pesasse o desespero dos novos tem- pos, eu sabia que era urgente dançar a dança da tolerância, reconhecer a beleza de uma re- ceita que deu certo, festejar o final de um livro que encheu o peito de ideias, do bolo fresco que exalava amor. Era preciso comemorar os prazos cumpridos, o fim da obra, os boletos pagos, dormir sem pesadelo, acordar com pro- pósito, o Sol em Aquário, o sol na cabeça. Era preciso ver. O que eu não fazia ideia quando roubei do ra- pper o título e o espírito do texto era que, muito em breve, seriam cinco os milhões de mortos. Cinco milhões de homens e mulheres que po- díamos ser eu, você, a vizinha, o amor da ado- lescência, um colega do trabalho, o dono da loja que adoramos, qualquer um de nós ou dos nossos queridos, qualquer um. Eu fiz as contas. Se um minuto de silêncio fosse guardado para cada vítima da Covid no mundo, seriam 9 anos, 187 dias, 5 horas, 16 minutos e 48 segundos sem dizer uma única palavra, nenhuma, re- colhimento completo. Quase uma década de gente absolutamente quieta como os monges
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