Revista Palavra 11
palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Ana Laura Nahas é jornalista e escritora. Autora dos livros Todo sen- timento (2009) e Quase umsegundo (2013), participou tambémdas coletâneas Escritos de Vitória – Cine Foto Vídeo (2004), Escritos de Vitória – Olhar Forasteiro (2012), Sérgio Sampaio: Sem a loucura não dá (2016) e Por que você escreve? (2018). Nasceu em Ribeirão Preto (SP) em 1977 e vive em Vitória (ES) desde o início dos anos 1990. Mantém o blog analauranahas.com e, aos domingos, assi- na uma coluna sobre cultura, diversidade e comunicação no jornal A Gazeta (ES). Ana Laura Nahas página 065 trapistas do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo e a tribo dos dogons no final da jorna- da – quando acabam as palavras, a vida deles também acaba. Se contássemos por grandes cidades do mun- do, Singapura inteira ou duas Paris e meia simplesmente desapareceriam do mapa, como Bacurau, retirada da Geografia com tudo dentro, esquecida no meio do nada com sua arquitetura, esquinas, afetos e desavenças, saudades e rancores, sonhos, desejos, memó- rias e projetos para amanhã. Disto eu também não sabia quando roubei do rapper o título e o espírito do texto: que have- ria outros 300 e tantos dias em que o tempo parecia correr atrás de si mesmo enquanto a gente envelhecia, cancelava projetos e subce- lebridades, lavava louça para em seguida su- jar outra vez, sovava pão e incertezas, suspen- dia vontades e encontros. Mas, quanto mais o tempo passava e pesava, mais eu sabia que era preciso sorver a leveza de um sábado de paz, o gol da virada, o feria- dão nos litorais, o tupperware em que a tampa ainda encaixa, um presente feito de guache e papel, o faz-me rir da hora extra e outras pe- quenas alegrias da vida adulta, exatamente como na canção. Quanto mais o tempo passava e pesava, mais eu entendia o tamanho do privilégio de estar viva num tempo de cinco milhões de mortos, de sufocante e longuíssima quarentena, de extermínio no lugar do cuidado, de estatísti- cas sentadas no sofá da sala, dos que se fo- ram, de tudo. Talvez tenha sido por isso que roubei do rapper o título e o espírito do texto: porque eu busca- va, sincera e simplesmente, agarrar o que me fizesse manter o movimento em meio a tantos golpes, protocolos e más notícias. Uma alegria aqui, outra acolá para atravessar os turbulentos meses de pandemia, até que fosse possível cumprir o verso em que o espí- rito repousa, reza e volta cem por cento, aquele verso, sabe?, que eu roubei do rapper, junto do título e do espírito do texto. © Chico Guedes
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