Revista Palavra 11

palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Mário Rodrigues página 072 Crônica Chandrika * No Catar, a mão de obra para a construção civil era escassa. E havia muito trabalho a ser feito por toda parte. Estádios, hotéis, estradas e até mesmo uma cidade inteira que seria constru- ída do nada. Chandrika ficou muito feliz. Era possível ver seu sorriso desdentado quando ar- ranjou o primeiro emprego, de ajudante geral: ele ganharia dois euros por dia. * O Craque-Instagram ganha dois euros – por segundo – para brincar de bola. Chandrika também trabalha com uma bola. Uma imensa bola de ferro, de demolição. * No final de cada mês, Chandrika junta o di- nheiro recebido e paga a comida e a hospeda- gem– oferecidas, superfaturadas, aos peões da Copa. Com o que sobra, vai a uma casa de câm- bio e converte o apurado. Através de marinhei- ros mal-humorados, em cargueiros resilientes, Chandrika envia o pouco que conseguiu até a periferia de Colombo, até sua mãe e sua irmã. * (A mãe do Craque-Instagram comprou, mês passado, uma mansão de treze milhões de re- ais no Park Palace, na Barra da Tijuca. A irmã do Craque é famosinha de TikTok, ela faz dan- cinha, ela faz “publi”. Ganha, com um único “stories”, muito mais do que Chandrika em um mês de construção civil.) * Chandrika morreu ontem. Foi atropelado por uma daquelas rodas de bitola gigantescas, * O Craque-Instagram é seguido em sua rede social por mais de 170 milhões de pessoas ao redor do mundo. Além disso, em valores atu- ais, foi vendido por 1 bilhão e trezentos mi- lhões de reais para um time de Paris. * Chandrika, por outro lado, não usa o Insta- gram. Na verdade, não tem sequer acesso à internet em sua casa. Sempre ouviu as pes- soas falarem a seu respeito: “Esse não vale nada”. De fato, nunca se interessaram por ele. * Quando soube que a Copa do Mundo de 2022 ocorreria no Catar, Chandrika, apenas com a roupa do corpo, deixou seu casebre na perife- ria de Colombo, no Sri Lanka. Numa embarca- ção capenga, singrou o Mar da Arábia e entrou pelo Golfo de Omã; depois, pelo Golfo Pérsico. Até que chegou a Doha, no Catar, onde traba- lharia nas obras de preparação para o famoso torneio de futebol. * O Craque-Instagram nasceu em Santos. A mesma cidade onde Pelé, o maior jogador da- quele esporte, se fez ídolo. O pai do Craque- -Instagram – um antigo jogador, frustrado e falido – sabia o caminho das pedras naque- le meio futebolístico tão incerto. Fez do filho um construto de marketing e de ostentação. O Craque-Instagram só sairia da proteção da casa santista para brilhar nos gramados da Europa – primeiro em Barcelona e, por fim, em Paris. Mário Rodrigues

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