Revista Palavra 11

palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Nummundo com tantas possibilidades, o que a levou a estudar Letras? Como foi sua relação com a literatura na infância e na adolescência? [ TG ] Eu cresci numa casa sem leitores, onde os livros de ficção eram raros, quase inexistentes. Mas meus pais sempre me incentivaram a ler — e esse estímulo foi fundamental. Criança e adolescente, eu passava horas na biblioteca pú- blica do bairro. Apesar de ser uma entusiasta da literatura desde cedo, por muito tempo me pre- parei para cursar Direito, desejando fazer par- te da construção de um mundo mais justo. Até que, no último ano da escola, quando a decisão se fez inadiável, percebi que não faria sentido me dedicar ao que não me despertava paixão. Então assumi que meu verdadeiro caminho era a literatura e percebi que poderia fazer dela um instrumento de transformação social. Foi as- sim que decidi estudar Letras. A literatura brasileira tem encontrado um ótimo canal na internet para sua difusão. Como o canal LiteraTamy surgiu e se estabeleceu nesses anos? [ TG ] O LiteraTamy surgiu em 2015, quando eu es- tava no segundo ano da faculdade e desejava compartilhar informalmenteminhas experiên- cias literárias, conhecer outros apaixonados por livros, dividir o entusiasmo pela literatura, enfim, construir pontes das letras que me for- mavam. A internet se mostrou o lugar mais propício a tal realização. Com o passar do tem- po, o canal foi acompanhando minha trajetória acadêmica, focando cada vez mais na produ- ção contemporânea, sobretudo a brasileira. Um de seus intuitos é servir de elo entre leitores e Tamy Ghannam página 09 profissionais do livro, como autores e editores, especialmente aqueles que trabalham de forma independente e que encontram no LiteraTamy um espaço de escuta e partilha. Você tem um trabalho específico sobre a obra de Lygia Fagundes Telles. Qual a importância dessa autora para a sua trajetória? [ TG ] Conheci Lygia na biblioteca do bairro. Vi As meninas na prateleira e, aos 13 anos, pensei que o título combinava comigo. Minha imaturida- de literária não me permitiu prosseguir com a leitura, até que, anos mais tarde, reencontrei a autora em outra biblioteca pública. Com Antes do baile verde foi amor à primeira vista. Seus contos me incomodaram, me revelaram algo de repulsivo muito bem escondido dentro de mim, me mobilizaram. Dediquei minha iniciação científica a esses textos e aprendi muito com a Lygia, escritora e mulher, sobre a literatura e a vida. Eu, certamente, não seria quem sou hoje se ela não tivesse cruzado meu caminho. Ainda que tenha havido um relativo aumento no consumo de livros nos últimos anos, especialmente em função do isolamento provocado pela pandemia, o Brasil amarga índices de leitura muito baixos. Na sua percepção, a que se deve esse quadro e quais seriam os caminhos? [ TG ] Seria possível pontuar diversas causas para os baixos índices de leitura no nosso país, mui- tas mais do que eu poderia listar neste momen- to. Quem trabalha com livros no Brasil com fre- quência se sente numbeco semsaída de origens primitivas, numa situação que é produto de sé- culos de descaso institucional com a literatura, como se nada, além do apego insistente que temos aos livros e a seus poderes, contribuís- se ao fomento à leitura. Apoio toda iniciativa de formiguinha em prol da literatura, mas é preciso ir além. Políticas públicas de acessibili- dade às obras literárias, certo ânimo nacional comprometido a transformá-las em parte fun- Apoio toda iniciativa de formiguinha em prol da literatura, mas é preciso ir além.

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