14 AB OVO Começa pelo começo. Digo porque poderia começar pelo meio. O narrador- protagonista em plena festa, bar apinhado de malucos, luz estroboscópica piscando, som a milhão e a história sendo contada em idas e vindas através do tempo. Ou pelo fim. Tudo acabado, bar vendido e um longo flashback em preto e branco ou a história em retrocesso, projetada de trás pra frente como num filme surrealista. Mas não. Começa pelo começo. Minto. Antes: pré-ovo, pré-gestação, namoro, paquera. E então pedido, proposta, proposição, propositura. E depois de desvirginado foi foda. Eu era um bancário infeliz com uma bela coleção de discos e o cabelo comprido emplastado de gel e penteado pra trás (não podia usar cabelo comprido no banco, então eu disfarçava). Nas horas vagas, fumava uns baseados, lia, saía à noite, fumava uns baseados, ia ao cinema, fumava uns baseados, escutava música, fumava uns baseados e, dentre outras atividades culturais e mais uns baseados, atacava de produtor (leia-se que eu escrevia e entregava os releases, co- lava cartazes, distribuía panfletos, carregava equipamentos e outras chatices mais) da banda do Ricardo, meu amigão. Conheci o Ricardo numa viagem pro litoral, era feriado de Navegantes. Eu estava na saída da cidade com a Deb- bie, a minha namorada na época, pedindo carona pra praia quando ele passou no carro de uns amigos (dele) e ofereceu uma (carona). Ele já conhecia a Debbie de outros carnavais – Navegantes, no caso – nos viu na estrada, eu com cara de tédio e a Debbie com o dedo em riste, mochilas no chão do 1.

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