18 ser empregado dos outros. Perguntaram se eu não queria ser sócio deles na empreitada. Um bar diferente, cara, só com música legal. Um espaço pras bandas, onde os músicos vão ser tratados com respeito. A ceva e o ingresso por um preço acessível, dizia o Marcos. E certamente vamos ganhar dinheiro, o Ricardo. Pra ganhar aquele dinheiro eles só precisavam de algum dinheiro e da disposição de chutar o balde. Se o que tinham em termos de grana era pouco, a disposição pro chute com- pensava. De óleo de soja, os caras já estavam de saco cheio. Assim como eu também não aguentava mais as minutas, os contratos, o cabelo emplastado de gel, a máquina de telex, a parede do prédio do lado. Eu queria ser um astro de rock ou pintor famoso ou poeta maldito ou qualquer coisa bem ar- tística rebelde experimental, tipo morrer jovem e belo. Um emprego num banco não ajudava muito nas minhas ambi- ções. Eu via o taxímetro da minha vida girar enlouquecido enquanto mofava dentro daquela agência escrota. Nunca ti- nha pensado em ter um bar, só pensava em ir a bares, mas, por um instante, a ideia me pareceu interessante. Talvez ter um bar fosse artístico. A história estava cheia de bares le- gais: o Cabaret Voltaire, em Zurique; o Whiskey a Go-Go, em Los Angeles; o Haçienda, em Manchester, o Rick’s, em Casablanca, o Studio 54 e o CBGB, em NYC. Tá certo que aqui era apenas Porto Alegre, mas a gente faz o que pode.
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