17 o Ricardo sempre aparecia e a gente pegava um filme no Ponto de Cinema, uma sala bacana que pegou fogo de- pois, mas que, na época, final dos anos 80/início dos 90, só passava uns filmes cult tipo mostra expressionismo ale- mão ou ciclo Jim Jamursh ou retrospectiva Wim Wenders ou festival Hitchcock. Era fatal: seis e cinquenta e poucos chegava o Ricardo enquanto eu passava as últimas men- sagens na minha tão ruidosa quanto anacrônica máquina de telex, aberração mecânica que eu operava com perícia e destreza, diariamente das 13h às 19h, repassando con- tratos, minutas e demais requerimentos, sentado de fren- te pruma janela que dava pra parede do edifício do lado e pensando que era bem melhor quando eu era boy que pelo menos eu dava umas voltas. O Ricardo chegava e a gente fechava os baseados que ia fumar antes do cinema. O crime era cometido atrás da Santa Casa, onde hoje tem um complexo hospitalar novo, supermoderno, só pra clientes particulares ou com plano de saúde. Antes, o terreno era só um estacionamento pros professores e alunos da Faculdade de Medicina e um pico tranquilo pra se fumar um baseado antes do cinema. Ou ele pintava no banco com o Marcos e a gente ia lá em casa ouvir um som e escrever os releases da banda – sempre cheios de muitos adjetivos e clichês medonhos como “riffs psicodélicos”, “grooves envenenados” e coisas do gênero. A gente também costumava almoçar em restaurantes de à la minuta do Centro e, um dia, num banco da Praça da Al- fândega depois do rango, pegando um solzinho de inver- no antes do trabalho, os dois me contam que vão largar os respectivos empregos e, com a grana da rescisão, abrir um bar, um velho sonho do Marcos. Tinham feito as contas, o dinheiro talvez fosse pouco, talvez precisassem de mais al- gum, mas foda-se, iriam arriscar do mesmo jeito. Chega de

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