22 A casa assassinada A família não recebeu muito bem a notícia. Mas como o pai morava longe e não lhe cabia o direito de opinar, família mesmo era só o vô e a mãe – que choramingava, reclamava, advertia, mas, no fim, influía pouco nas decisões: Mas como tu vai largar o emprego no banco pra... pra... pra abrir um bar? Emprego tá tão difícil hoje em dia. O que o teu vô vai pensar? Vendo que suas admoestações não levariam a lugar nenhum, ela achou melhor dizer pro vô que eu tinha sido demitido do banco. Minha mãe sempre foi uma mentirosa compulsiva e era um saco porque ela passava todo o tempo na iminência de ser desmascarada. Quando aplicou a lorota no velho, ele ficou indignado e cogitou ligar pro seu Gon- çalves, um gerente do banco que ele conhecia, pra saber por- que tinham demitido o seu querido neto. Meu vô fazia um tipo Don Corleone, um careca temperamental, muito bem- humorado num extremo e altamente severo no outro, de uma rigidez de caráter exemplar, mas muitas vezes cabeça- dura, reacionário e impiedoso e, quando contrariado, dado a rompantes de fúria em que esculhambava, pra usar uma expressão muito sua, quem quer que ousasse contestar suas determinações. Nunca aprovou a ideia do bar, sempre detes- tou o Ricardo, mas foi figura fundamental na história do Ga- ragem: anos mais tarde, eu iria recorrer a ele prum emprés- timo (nunca pago, forçoso lembrar) que seria empregado na primeira grande reforma feita na velha casa do número 386 da Barros Cassal e que nos salvaria da primeira das muitas crises que enfrentaríamos. No banco, a recepção também não foi das mais positivas. Não vai durar seis meses. 2.
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