23 Dizia o Bernoto, um colono pelego que chefiava o setor de cobrança, pra Ester, secretária do diretor regional, uma morena peituda que dava pra chefia inteira. Desiste disso, meu filho, já vi tanta gente largar emprego pra abrir locadora, farmácia, padaria, restaurante. Sempre se arrependem. Dizia seu Itamar, um negão manhoso e malandro, subdi- retor-geral, que tinha as gavetas da escrivaninha cheias de revistinhas pornô e, nos intervalos e horas do almoço, comia as meninas da limpeza na salinha do ar-condicionado que ficava no quarto andar, ao lado do almoxarifado. Mas nada poderia me impedir. Fiz um acordo com o banco, que me demitiria sem justa causa, estando eu com- prometido a não entrar na justiça trabalhista pelas inúmeras horas extras não remuneradas e série de outras irregularida- des a que me submetera nos últimos três anos. Lembro do dia em que fui ao sindicato assinar a rescisão do contrato, tive uma diarreia horrível. Seria cagaço ou uma imagem metafórica da minha posição em relação aos conselhos dos meus colegas de banco e ao banco propriamente dito? Eu cagava e andava pra aquela porra de instituição, mesmo assim iria cumprir a minha parte do acordo, afinal, por mais filhas-da-puta que fossem os diretores, chefes, subchefes, secretárias e todo o ambiente de trabalho em geral, eu era um cara de palavra. A grana viria em três parcelas. Fundo de garantia, salário desemprego e não-sei-mais-o-quê. Daria pra aplicar no bar e ainda segurar a onda por um tempinho até que o negócio engrenasse. O mais importante era achar um ponto pra dar início ao trabalho, mas justamente aí estava a maior das di- ficuldades: nenhuma imobiliária queria alugar uma casa pra gente. Em geral imobiliárias veem com desconfiança locatá- rios que almejam abrir bares noturnos em seus imóveis. Al-
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=