7 que pontuam a narrativa. Não há um traço sequer de nos- talgia barata, idealismo, autoindulgência, deslumbramen- to, acertos de contas. O Leo sabia que a história era boa e soube moldar seu texto de acordo. Ficamos conhecendo os sonhos e as motivações dos donos, as brigas, a tremenda bronca que era manter a espelunca funcionando, os cercos policiais, as retaliações da vizinhança, as recompensas, as barras-pesadas, os frequentadores bizarros, as figuraças, os traficantezinhos que foram tomando conta, os antológi- cos porteiros e a fauna que dava vida a todas aquelas festas memoráveis. O resultado é envolvente, por vezes hilário e incômodo, e saudavelmente mundano. Eis algo que aconteceu. Foi bem assim. Um bar inven- tado por dois malucos que eram “punks e não sabiam” para ser “o nosso próprio bar na falta de outro melhor” e que se tornou o melhor bar que muita gente já viu. Uma história que marcou centenas de vidas, algumas gerações e uma ci- dade que nunca tinha visto um lugar parecido e continua órfã dele. Para os leitores da minha geração de frequentadores do Garagem, a leitura de A Fantástica Fábrica será um exer- cício de nostalgia de trás-pra-frente. Conhecer o passado do bar gera uma estranha sensação de desbravar um futuro flutuante no tempo, uma história que muitos viveram direta- mente e que nos é dada conhecer somente através da narrati- va póstuma. Para os veteranos do Garagem que começaram lá no início da década de noventa, suponho que será uma leitura marcada por altas doses de nostalgia pura e simples e também um pouco de melancolia, aqui entendida como aquela tristeza boa ensejada pela noção de que tudo é incrível e transitório. E para quem não conheceu o Antigo Garagem, o Velho Garagem, o Garagem Clássico, talvez tudo isso soe como ficção. Porque parece mesmo. Ficção das boas.

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