9 8 – para isso, será preciso ouvir algum de seus discos e ler algum de seus livros, tarefa que demanda atenção específica. O caso é que a obra de Vitor é conhecida diretamente, em experiência sen- sível, imediata, por qualquer um que tenha estado vivo, respirando e pensando, nas últimas três décadas, no Rio Grande do Sul e na parte mais significativa do Brasil, considerado aqui o ponto de vista da cultura exigente que emerge do campo da canção popular e do campo da narrativa de ficção. Atire (em mim, que estou fazendo essas afirmações em voz alta), atire a primeira pedra quem nunca teve al- gum insight, algum estremecimento íntimo, alguma intensificação em sua percep- ção do mundo ao ouvir (e possivelmente cantar junto, mesmo que silenciosamen- te) Estrela, estrela , Loucos de cara , Ramilonga , Joquim , tanta coisa linda assim. Fiquei aqui fazendo contas, depois de escrever essas linhas aí de cima, em torno dessa turma dos dez mais. E fiquei ainda mais convencido do que afirmei. Vitor Ramil, com seus discos e seus livros, por certo faz parte do seleto grupo dos artistas que não apenas tiveram sucesso na linguagem escolhida (Vitor em duas, canção e ficção, para nem falar de ensaio), mas que também, e mais decisivo ainda no presente comentário, conseguiram em sua obra sintetizar tensões, ques- tões, problemas, dilemas culturalmente relevantes, de proa, alguns dos quais nem eram visíveis antes de sua obra se articular, e que receberam nela uma abordagem esteticamente preciosa, reconhecida já em seu próprio tempo.

RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=