LUÍS RUBIRA Vitor Ramil – Nascer leva tempo esposa, Dalva, natural da fronteira, da cidade de Jaguarão (sua mãe nascera em Rio Branco). É nesse espaço de transição, de extensão entre dois mundos que convi- vem dentro de sua residência, que Vitor Ramil vai crescer. Seus irmãos mais velhos, estando imersos nesse ambiente há mais tempo, carregam esse duplo mundo para fora de casa. Por volta dos oito anos, quando Kleiton e Kledir fazem suas primeiras apresentações na escola em que estudam (o Instituto de Educação Assis Brasil), eles cantam em português, mas também na língua que tão bem conhecem: “Luna que se quiebra sobre las tinieblas de mi soledad, ¿Adónde vas?” ( Noches de ronda ). Como os irmãos, o caçula da família cresce entre as culturas de língua portuguesa e espanhola; nele, todavia, esses dois universos culturais vão acabar por agir de um outro modo. Mas é também em Pelotas que Vitor encontra um mundo que vai marcar a formação de sua identidade. A “cidade magnífica” ou a “cidade rigidamente planejada” aos poucos ganha profundidade em seu interior. Centenas de im- pressões vão depositar-se no fundo de sua memória e ficarão ali trabalhando em silêncio, encobertas pelo esquecimento, tal como o entorno desaparece de tempos em tempos tomado pela neblina. Nas imediações, a percepção reco- lhe fragmentos: a velha casa com seu longo corredor e paredes de escaiola; a cidade com seus telhados, chafarizes, ladrilhos hidráulicos. Da memória dos mais antigos chegam também traços envoltos em densa névoa: Pelotas teria iniciado com as charqueadas; seu plano arquitetônico revelaria uma influência europeia. E mais: circulam informações de que no passado o Estado fora atra- vessado por guerras, pela luta e proteção de fronteiras, por uma revolução que o separou provisoriamente do Brasil. Densa é a formação dessa cerração, desse “tempo fechado” que toma conta da cidade e da memória. Ela cobre calhas, jardins internos e claraboias, antigas residências com respiradouros e forros distantes. Pela neblina, tudo o que a percepção recolhe volta a ocultar-se: há caminhos diversos que conduzem ao mercado público, ao porto, à estação de trem. As ruas são de paralelepípedos, suas calçadas são altas, a umidade verte por todas as partes. Os transeuntes entram e saem de antigos casarões, circu- lam por entre os trilhos de bonde, fazem um rumor de xícaras e vozes dentro do Café Aquários. Na zona central uma casa de tango chamada “O Sobrado”, postes de ferro vindos da França; e também ruas em linha reta por onde já circularam o escritor Simões Lopes Neto e o poeta Lobo da Costa. Nas cerca- nias existem planícies, figueiras centenárias, estâncias, caminhos diversos que conduzem à velha cidade envolta pelo nevoeiro. Na memória penetrada por di-

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