33 32 rins, fígados, úberes, tripas, morcilhas, chouriços, sendo feitos sobre a grelha. Uma cerveja Pilsen para ele, um suco de laranja Vital para mim. Havia uma espécie de equilíbrio entre as coisas do lugar que parecia agradá-lo: o murmúrio castelhano de vozes afinado com o som do impacto das achas atiradas com destreza pelo assador em um suporte de ferro, e o salto das labaredas quando da queda da gordura desprendida das carnes combinando com os passos ágeis dos garçons entre as mesas, e as paisagens do oeste uruguaio nas paredes ilumi- nadas pela luz penetrando do leste, a espuma da cerveja subindo no copo ao ritmo de um tango mal sintonizado no rádio, e o cheiro das achuras no cheiro do ar esfumaçado. 7 Voltar ao Uruguai, escutar os discos de tango, falar em espanhol: movi- mentos para não perder as raízes, para ir em busca de algo que ficou para trás. De certo modo Kleber Ramil repetia, em Pelotas, uma experiência já vivencia- da por seu pai – aquela de quem rumou para solos distantes: “não pertencer a nenhum lugar, nenhum tempo. A origem perdida, o enraizamento impossível, a memória profunda, o presente em suspenso. O espaço do estrangeiro é a transição que exclui a parada” 8 . Seu pai, Manuel Ramil, havia deixado a Ga- lícia para viver no Uruguai. Deixara uma região que tinha entre seus limites o oceano e a fronteira com Portugal, para residir em outra também limitada pelo mar e pela fronteira com um país de língua portuguesa. 9 Kleber, por sua vez, nascera em Montevidéu, mas também migrara de seu país de origem para viver no extremo sul do Brasil; uma mudança também compartilhada por sua 7 RAMIL, Vitor. Pequod . Respectivamente p. 13, 61, 62, 63 e 67. 8 KRISTEVA, Julia. Étrangers à nous-mêmes . Paris: Fayard, 1988. 9 Em Pequod , Vitor Ramil fará uma referência à Galícia: “Galícia atiende y obedece a la llamada del oeste. Como Irlanda, como Bretaña, como la Anatolia en el mundo clásico. Pero si las ciudades griegas del Asia Menor, con su espíritu creador, vivían la diaria muerte del sol con un mar bien pronto para ellas limitado por otras tierras accesibles, Galícia es un finisterre y el hombre clásico conoció el largo y ejemplar terror y invitación del mar desconocido y la tragedia alcídica de la llama ardiente del sol apagándose cada tarde en la tensa y vibrante cuerda del océano”. (RAMIL, Vitor. Pequod , p. 42. O trecho é retirado de PEDRAYO, Ramon Otrero. Los Gallegos . Ediciones Istmo, Madrid, 1976).
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