39 38 sem pressa. Por enquanto preciso pegar experiência no palco e conhecer mais gente até resolver a sério se vou me profissionalizar (...). Tenho muito a ver com meus irmãos, mas ouço muitas outras coisas, como Gismonti e Milton Nascimento, e meu trabalho vai mais por este lado. [atualmente] há toda uma massi- ficação pela importação de música estrangeira [e eu] não acredito em música descompromissada. 23 A julgar pelo depoimento, tornar-se músico significava encontrar um caminho próprio como artista. Opondo-se à massificação, o jovem Vitor já distinguia aqueles que buscavam uma arte singular, mesmo em meio a um cenário marcado pela importação da música de entretenimento. É preciso lembrar que na década de 1970 as ditaduras militares tentavam também ca- lar as vozes da “música de protesto”: no Chile, Víctor Jara havia sido morto em 1973; no Uruguai, Alfredo Zitarrosa fora obrigado a se exilar em 1976; na Argentina, Mercedes Sosa foi detida no ano de 1979. Mas para além do momento histórico de controle ideológico em que o jovem compositor estava inserido, instaurado em 1968 com o AI-5, havia também uma multi- facetada e rica herança musical brasileira e estrangeira com a qual ele teria que lidar, a fim de encontrar seu caminho nos domínios da arte. Dentre tantos gêneros musicais, o Choro surgira no Rio de Janeiro do século XIX e produzira nomes como Ernesto Nazaré, Chiquinha Gonza- ga, Pixinguinha; do mesmo lugar vinha também o Samba-canção a partir de 1930, que encontraria lugar em vozes como Francisco Alves, Orlando Silva, Elizeth Cardoso. O desenvolvimento do Samba conduzira ao apare- cimento de Noel Rosa no Rio dos anos trinta, e de Adoniram Barbosa na São Paulo de 1950. De Recife e de Pernambuco chegava o Frevo e do inte- rior de São Paulo a música Sertaneja de Tonico e Tinoco, que encontraria expressão em Inezita Barroso. O Baião, por sua vez, levara Luiz Gonzaga, a ganhar cada vez mais espaço como músico do folclore nordestino. É tam- bém no fim dos anos cinquenta que se desvela um fenômeno brasileiro: João Gilberto. A Bossa Nova então conquista o mundo por meio dele e do maestro Tom Jobim. Nos anos sessenta, os festivais de música trazem à 23 “Corpo de baile: a estréia de Vitor Ramil (hoje em Pelotas)”, Folha da Manhã , 25/5/1979.
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