49 48 alguns músicos de expressão produziam na época. Exemplo disso era sua ad- miração por Milton Nascimento, cuja voz Vitor procurava imitar. Afinal, não parece haver ressonâncias em Estrela, estrela de discos como Clube da es- quina (1972), e Minas (1975)? Não haveria traços em algumas letras de Vitor que dialogam com esses álbuns, tal como o trecho “colher o centeio / pra fazer o pão” (“Tribo”, Estrela, estrela ) quando comparado com “plantar o trigo / e refazer o pão de cada dia” (“Fé cega, faca amolada”, Minas )? Seria por acaso que músicos que participavam destes discos, tais como Wagner Tiso, Mauro Senise e Robertinho Silva, estivessem também em Estrela, estrela ? As canções daquele adolescente estavam, portanto, em sintonia com a canção brasileira. Já no que diz respeito às letras, do ponto de vista do conteúdo e da forma, Vitor declarou em 1995: “[elas] realmente são bastante pobres” 43 . Nessa constelação, todavia, em que faltava uma assinatura mais própria, uma letra destacava-se: a canção-título do álbum. ... O próprio encarte de Estrela, estrela trazia uma foto de Vitor Ramil es- tilhaçada, e no centro dessa foto o desenho de uma pequena estrela. A força dela, de fato, estava no núcleo do álbum. O que dizia a letra dessa canção? Primeiramente um questionamento movido por temas instigantes: Estrela, estrela / como ser assim Tão só, tão só / e nunca sofrer Brilhar, brilhar / quase sem querer Deixar, deixar / ser o que se é O sujeito da letra, portanto, acredita ver no céu uma estrela que se deixa ser aquilo que é, que é solitária e que não sofre por essa solidão. Curiosamente “ser o que se é” é uma fórmula antiga que aponta para o caminho da indivi- duação, da singularidade. Assim, embora essa canção de Vitor tenha cativado seus ouvintes pela beleza de sua composição, é preciso atentar para essa frase escrita por um adolescente; fórmula que, de algum modo, fornece a chave para entendermos o caminho que Vitor trilhará enquanto indivíduo e criador. Voltemos, porém, à letra. A segunda estrofe mostra que a distante estrela está, efetivamente, bastante próxima: 43 “Vitor Ramil À beça ”, Capacete , 1995, p. 20.

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