17 URBE | # 01/04 | CARTOGRAFIAS URBANAS forma foi no armazém Dona Laura, quando era criança – frequentava a fei- ra da antiga rua Goethe, aos domingos de manhã, e me fascinava a mistura de aromas dos legumes e frutas, e as gaio- las com porquinhos-da-índia. À tarde, andava de tobogã em um Parcão qua- se sem árvores. Toda cidade faz sentir saudade do que não mais existe, e da- queles amigos que não voltam. Em Lumphini Park, deito em um banco em frente ao lago. O distúrbio sonoro dos bairros e das avenidas de traçado ocidental dá lugar ao silêncio da Ásia milenar. Duas épocas e dois mundos justapõem-se. Adormeço, ob- servando o movimento tedioso dos barcos pedalinhos – como se estivesse na Redenção – e sonho com os dese- nhos do Grand Palace: painéis que con- tam histórias, como páginas de livros ilustrados, em que não se pode ver tudo nitidamente porque estão carregados de cores e de tempo. Seria necessário desmaiar a intensidade das cenas, sim- plificar a ação das figuras, dos comba- tes no antigo reino do Sião. Só após, veria as personagens levantarem e ca- minharem, saírem de dentro das cores dos painéis e cantarem, ressuscitarem, conversando comigo. Ao acordar, já é quase noite. Embarco no Skytrain. Duas adolescentes correm dentro do vagão e esbarram nas bolsas e nos perten- ces dos outros passageiros. Ouço xin- gamentos em tailandês. Percebo que o idioma não dá retumbância ao xinga- mento, pois sua entonação não combi- na com o ato de ofender. Na rua Sukhumvit e sua vida no- turna de bares e boates para turistas e expatriados, vejo senhores grisalhos passeando de mãos dadas com jovens tailandesas. Em Patpong, famoso bairro da prostituição, os estabelecimentos oferecem um cardápio com os shows sexuais, mais patéticos do que eróticos. Porém, muito além de tudo aquilo que se projeta ao visitante de forma osten- siva, o melhor de qualquer cidade é o que surge ao acaso. E a surpresa pode ser simples: um restaurante perdido em uma rua do bairro Pratunam, decorado com retratos antigos dos ancestrais Flávio Wild é designer gráfico, fotógrafo e escritor, nascido em Porto Alegre em 1964. Há 21 anos desenvolve a identidade gráfica aplicada ao segmento cultural, em livros e peças gráficas de espetáculos de teatro, música, cinema e literatura. Participou da 3 a Bienal do Mercosul com a instalação Porões da Mente , pela qual conquistou o Lápis de Bronze do The One Show Festival , de Nova York, e o Prêmio Ouro da Bienal Brasileira de Design Gráfico . Venceu sete vezes o Prêmio Açorianos de Literatura , nas categorias capa e projeto gráfico. Em 2010, obteve o financiamento do Fumproarte para publicar o livro Silêncio em Siena , formado por contos e fotografias inspirados em cidades europeias. dos proprietários, e mesas à sombra de mangueiras, onde se pode comer pei- xe ensopado, temperado com ervas, gengibre e pimenta. Ali deixo passar o tempo, bebendo o vinho do lugar, que recende a manjericão. Um jardi- neiro, com as mãos da cor da terra, ca- minha entre as folhas das mangueiras, com a leveza de uma borboleta, para completar o seu serviço das flores, e logo desaparecer anônimo, admirável. O encanto por essa cidade exótica e seus apelos visuais resultam da ideia de novidade e de mudança, de en- contrar nela não apenas elementos antagônicos à terra de origem, mas também associações e semelhanças. Nossa cidade nunca se deixa.
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