18 URBE | # 01/04 | CARTOGRAFIAS URBANAS lucas pexão Dependendo da vivência de cada um, o termo “skate” pode ter os mais varia- dos significados. Pode estar associado ao bambolê, ao ioiô e a outras supostas brincadeiras juvenis, como quando sur- giu no final dos anos 1950. Ou ser um símbolo da desordem e delinquência na cidade, inseparável da atitude punk adotada por muitos skatistas nos anos de 1980. Dependendo dos canais de TV que você assiste, também pode pensar nele como um “esporte radical” e no skatista como esse atleta que decola em rampas gigantescas, em meio a ban- ners de patrocinadores. De fato, o ska- te tem um pouco disso tudo (e muito mais), mas existe todo um sentido bem mais complexo e difícil de rotular para essa prática que acontece principal- mente nas cidades. É o skate de quem, de fato, passa os seus dias sobre ele e/ ou pensando nele. Uma atividade glo- bal com uma história rica, uma indústria Sobre a intervenção urbana pós-coreografada da performance do skate grandiosa e uma rede de comunicação dinâmica. Neste artigo, apresento a cul- tura do skate no meio urbano para, em seguida, sugerir um novo ângulo para observá-la, sob a ótica de expressões ar- tísticas e de minhas experiências como integrante do coletivo NOH. A cultura do skate é essencial- mente criativa, tanto pela maneira de utilizar o mobiliário urbano e registrar suas manobras quanto pela importân- cia que dá ao design gráfico e à arte visual, estampada nas roupas que os skatistas vestem e nos equipamentos que utilizam. O lado mais progressista do skate, no sentido da evolução dos movimentos possíveis de serem exe- cutados sobre ele, acontece longe dos campeonatos e de toda lógica com- petitiva. A maioria dos skatistas mais celebrados por outros praticantes di- vulga seus feitos, realizados sobretudo nas ruas, fora de eventos competitivos, por meio de registros difundidos por veículos de comunicação. Ainda assim, desde seu surgimento, parte da co- munidade do skate tentou encontrar um lugar para ele dentro do universo dos esportes, em uma busca por maior aceitação da sociedade como um todo. Porém, raramente ele conseguiu se adequar ao nível de regulamenta- ção e de objetividade que configuram diferentes atividades como esporte sem ir contra os principais anseios do skatista. O skate de rua contemporâ- neo é uma expressão individual que acontece em constante adaptação ao meio urbano, em locais que não foram projetados para a sua prática. Nesse contexto rico em subjetividade, existe pouco interesse pela competição entre participantes, os quais pouco ou nada se assemelham com o que pode ser considerado um “atleta”. Outro fator essencial para come- çar a entender essa relação particular com a cidade reside no fato de que par- te considerável do que significa andar de skate acontece quando o skatista não está de fato andando sobre ele. Por um lado, existe uma constante atualização mental de cada praticante sobre acon- tecimentos locais e mundiais quanto a espaços e manobras, especialmente através de websites, revistas e vídeos (hoje, grande parte deles também vis- tos pela internet). Uma nova manobra realizada por um skatista em Londres, divulgada por esses diferentes meios, pode rapidamente ser vista, adaptada e executada por um skatista em Porto Alegre. Assim como uma manobra rea- lizada e divulgada em um determinado elemento da topografia urbana de uma cidade específica muda a percepção dos skatistas locais sobre ele. Por exem- plo, os corrimãos de metal da escada- ria em frente à Câmara dos Vereadores de Porto Alegre, pelo menos desde os anos de 1990, são plataformas para di- ferentes movimentos dos skatistas que

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