22 URBE | # 01/04 | CARTOGRAFIAS URBANAS O olhar e o hábito Os lugares podem ativar pensamentos sobre a nossa presença, nossa memória e o nosso lugar na História. Entre lugares que vivo, vivi ou visitei, as ideias vagam sobre as coisas que guardam memórias e esquecimentos – a História impregna- da nas cidades. O olhar estrangeiro para uma cidade à qual não pertencemos abre possibilidades de percepção e deva- neio que difere da experiência diária nos lugares. A rotina altera a percep- ção cotidiana, tornando tudo quase transparente, com detalhes que viram imperceptíveis quando cobertos pela repetição do hábito. Como pensar sobre Porto Ale- gre, que é casa e porto de todos os meus retornos? Penso na cidade sem vê-la, com uma distância temporal e geográfica que seleciona lembranças, esquinas, edifícios. Ponto de vista pri- vilegiado, talvez, onde a distância res- guarda a cegueira. Os lugares e as coisas (ou notas sobre o esquecimento) marina camargo Tento imaginar como seria pos- sível ativar espaços na nossa própria cidade. Espaços não só concretos, mas também frestas em que a imaginação e a lembrança de tempos passados ou futuros possam conviver com um cami- nhar pela cidade dia após dia, repetindo caminhos e só reconhecendo o que já conhecemos. Penso como a arte pen- sada e realizada para existir no espaço urbano pode ser ativadora de outras percepções que se deslocam para além do hábito. Se a arte pode ser capaz de alterar (mesmo que minimamente) a percepção dos habitantes de uma ci- dade, sua presença contínua no espaço urbano não poderia rapidamente voltar a ser rotina, retornando à invisibilidade provocada pelo hábito de ver? A memória (entre duas cidades) Durante o ano em que vivi na Alema- nha, cruzei os Alpes e visitei Roma. Apesar das suas diferenças, Munique e Roma guardam semelhanças e peculia- ridades referentes à marca da História em cada lugar. Em Roma, a História é tão presente que não é mais visível – ela impregna a memória de todos, e não necessariamente apenas a arquitetura. Roma é daquelas cidades do mundo que são tão únicas que geram um modelo de repetição. Uma cidade- -matriz. “Pode-se ainda detectar a mar- ca de Roma em toda uma série de ci- dades na Itália e noutros lugares”, diz Lewis Mumford 1 . Ao mesmo tempo em que Roma é um relato a céu aberto do passado, as suas ruínas podem indicar um relato de um futuro imaginado das grandes cidades de hoje, como um es- pelho invertido no tempo 2 . Em meio às ruínas do Foro Ro- mano, li uma inscrição que parecia in- dicar um monumento em memória ao Há um ponto em que a memória encontra a imaginação para então se fazeremmais verdadeiras A nossa percepção
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