30 URBE | # 01/04 | CARTOGRAFIAS URBANAS leandro valiati Em um plano distinto, os referidos bens também passam a ter valor na medida em que passam a possuir um mercado, que permite a reversão desses bens em moeda, a qual, por sua vez, permite a satisfação de necessidades a partir da sua troca por outras mercadorias. Esse é o ciclo constituidor do valor de troca. Cultura e Economia Há um arranjo peculiar entre o dito va- lor cultural e a formação de valor eco- nômico e capital, em um mesmo lugar enquanto espaço praticado 2 . Para ten- tar capturar o conceito de valor cultu- ral, é necessário um forte diálogo com um arcabouço teórico multidisciplinar, a partir do qual algumas escolhas de- vem ser feitas em virtude da amplitude do conceito. De acordo com Geertz 3 , as definições correntes sobre cultura, ainda que inseridas em, por exemplo, um ótimo compêndio de Antropologia, como o de Clyde Kluckhohn, são de- sesperadoramente amplas. Kluckhohn 4 define cultura como: “modo de vida global”; “legado social que o indivíduo adquire de seu grupo”; “forma de pen- sar, sentir e acreditar”; “abstração do comportamento”; “teoria, elaborada pelo antropólogo, sobre a forma pela qual um grupo de pessoas se comporta realmente”; “celeiro de aprendizagem em comum”; “conjunto de orientações padronizadas para os problemas recor- rentes”; “comportamento aprendido”; “um mecanismo para a regulamenta- ção normativa do comportamento”; “um conjunto de técnicas para se ajus- tar, tanto ao ambiente externo como em relação aos outros homens”; e por fim, “um precipitado da história”. Diante desse quadro, segundo Geertz, a escolha é fundamental para que não incorramos da “autofrustração do ecletismo” dado por essa amplitude de definições. O conceito de cultura defendido por ele que se constitui em um dos referenciais para esse trabalho, é dado pela semiótica. Recorrendo a Max Weber, o autor considera que “o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu”, o que leva o conceito de cultura como sendo essa teia e sua análise. Particularmente, no caso dos bens culturais, o valor em nível de bem-estar estabelece-se no sentido de capturar ideias, crenças e tradições de um grupo, além das condições de identidade e formação de entorno e pertencimento urbanos. Manifesta-se então o fato de que, na valoração dos fenômenos cul- turais, existem dimensões demonstrá- veis que escapam ao cálculo econômi- co e, sobretudo, são importantes para a tomada de decisões acerca da alocação de recursos por parte de indivíduos e da sociedade. Tais dimensões podem ser expressas pelos fundamentos da dis- tinção entre bens tangíveis, tidos como aqueles dotados de materialidade e formadores de capital físico, humano e natural 5 e bens intangíveis, dotados da condição de imaterialidade, sendo for- mados por componentes de significado A espacialização das relações sociais que objetivam práticas de consumo cultural (material ou não) está fortemente relacionada ao conceito de lugar

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